sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

Trintando

Ela não se sentia com aquela idade, mas o calendário mostrava: 30 anos. Olhou aqueles segundos que faltavam antes de celebrar mais um ano de vida e desejou que se estendessem mais e mais e mais. Mas não se estenderam. E ela percebeu, então, que os 30 vieram como um banho de chuva, para lavar a alma. Chegaram com redescoberta, autoconhecimento e muito aprendizado. Refez na memória sua trajetória até ali e sentiu gratidão. A Deus, pela vida. Aos pais, por lhe permitirem - e apoiarem - ser quem é. À vida, por ser. E desejou, então, que viessem mais 30. E outros mais. Até quando puder.





sábado, 12 de abril de 2014

Gorda

Nunca entendi - nem consigo entender - porquê as pessoas tentam ofender umas às outras. Especialmente quando essa "ofensa" é ressaltar uma característica da pessoa que foge aos padrões impostos e quase inalcançáveis da mídia. Gorda, baixinho, vara-pau.
Sempre penso que, quando alguém olha pra mim e me diz (ou pensa): GORDA!, querendo me xingar, devo ficar feliz. Afinal, se esse é o único defeito que encontrou em mim, então, meu bem, eu tô bem. E como!

segunda-feira, 10 de março de 2014

Ainda assim

- Vó, você é meio 'feínha', mas eu te amo mesmo assim.
Na mesma hora, a menina levou uma bronca dos pais, que estavam sentados no banco da frente do carro. A avó riu e disse para que não ralhassem; as crianças falam com o coração, ensinou.
E falam. Foi com o coração que a menina aprendeu a olhar a avó. Aqueles olhos não estavam acostumados às marcas que a vida lhe trouxera e, inocente, não conseguiam entender a beleza que viam ali.
Contudo, o mesmo tempo que marcou o rosto da avó lhe ensinou, calma e morosamente, que cada um daqueles detalhes tinha seu valor. Que era a junção deles que mostrava tudo o que havia vivido. Que tinham a sabedoria para ensinar, à neta, que era a verdade que importava, não as convenções sociais.
E hoje, com a certeza de quem só consegue enxergar com o tempo, a menina - já não mais tão menina - sabe que pode dizer que, sim, sua avó é linda. E ela a ama ainda assim.


sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Papel ou algodão?

Nesse mês temos dois marcos importantes na nossa história. O primeiro, no dia 08, são os nossos dois anos de namoro. E o segundo é antes, ainda, mesmo que eu não me lembre da data certa - o que é raro! - o primeiro ano em que dividimos muito mais do que as contas, as nossas vidas. Neste um ano, que sabemos bem que não foi fácil, aprendi muito com você. Especialmente a ter paciência (e ainda tenho um tanto a aprender, né?!) e a ceder, para evitar problemas maiores.

A questão é que nem sempre é fácil. Aliás, nunca é. Nem pra você, acostumado às mordomias que só os pais sabem nos dar, nem pra mim, que já tinha costumes e manias de um caminho trilhado cedo pelas próprias pernas. Mesmo assim, decidimos nos dar uma chance. E outra. E outra mais. Porque percebemos que o que construímos é bom e certamente vale a pena.

Por ora, quero agradecer. Pela paciência, pelos momentos bons, por esse ano juntos. Esses dois anos na minha vida. Amo você.

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Roza

- Eu espero que você continue a gostar de mim...
Nunca vou esquecer do seu olhar de medo quando me contou uma das coisas mais difíceis da sua vida. Mesmo distante, mesmo que tenha sido tão pouco tempo de presença constante, nossa amizade era algo forte, de coração. Coisa de gente que se ama assim, gratuitamente.
E não tem nada que pudesse diminuir isso. Porque você era assim, perfeito ao seu jeito. Era riso, era canto, era prosa. O que a gente viveu era poesia, da mais linda. Dessas que se guarda na memória. Dessas que vira roteiro de filme, do jeito que você gosta. Com uma trilha bonita e uma direção toda Roza.


quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Luz

Foto: Irineu Ricardo


É tão rápida a incidência da luz ao atravessar nossa retina que sequer percebemos que é tal fato que nos permite maravilhar as belezas que encontramos. A física explica, mas é tão natural amar o verde, o azul, o amarelo, tantas cores!, que nem nos damos conta de que elas, na verdade, não estão ali. Apenas refletem aquela que o objeto em si não pode absorver.

Certamente, de todas as belezas, a luz é a maior. É ela que nos permite conhecer as formas, as nuances, os caminhos. É por ela que oramos quando não encontramos uma resposta. É com ela que a nova vida chega.

Quando você abre a janela e deixa a luz entrar, sente o calor que irradia dentro do seu corpo, parte a parte. E entende que é graças à luz que enxergamos a vida. E nossas crianças, nossas cidades, nossos amores. É a luz que registra, ao se deixar desenhar pelas lentes de olhares atentos, os momentos mais felizes que passamos. Os mais marcantes. E, porventura, os mais tristes também.


E o mais incrível, perceberão os corações mais intensos, é que a luz está aí, em toda parte. Dentro de cada um de nós. Porque, no final, tudo é luz.

.

O texto e a foto fazem parte do livro "Campo Mourão em Olhares e Versos", organizado por Lucas Mantuan e Jenifer Yasoyama e com correção da Gracieli Polak. A ideia era escrever um texto a partir de fotos de fotógrafos da cidade. O meu texto foi complementando as fotos do Irineu, mas escolhi esta para este post.

sábado, 9 de março de 2013

Discalculia*

Não me venha com números. Nunca nos demos bem. Os números são frios, estáticos, calaos. Por mais exatos que sejam, costumam apresentar margem de erro. E, mesmo assim, não perdoam a inexatidão humana.
Não me venha com números. Ele generalizam, somam males, diminuem vidas. Contabilizam, sem dó nem piedade, tudo aquilo que nos assusta, amedronta e entristece.
Não me venha com números. Eu gosto mesmo é de sorriso, de histórias, de gente. De cheiro de vida, de calor de abraço, de gosto de beijo. Números me mostram, quando muito, um quadro geral. Mas eu não quero saber do todo, mas da Maria, do João, da Amélia. E de você. Por isso, por favor, não me venha com números.

* discalculia: perturbação ou dificuldade no cálculo aritmético. O mesmo que dislexia, aplicado à matemática.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Novos caminhos

Não passou a noite anterior acordada, de tão ansiosa, como antes. Tampouco preocupou-se em ver, com antecedência, como faria para estar lá, mesmo longe e com hora marcada. O passo, já firme, entretanto, tremeu ao entrar na sala. Cheia, de tantos rostos desconhecidos e completamente sem marcas. O tempo não passara por ali. Olhou para suas unhas que, sem perceber, tinham sido pintadas de um rosinha que talvez tentasse enganar àqueles que não conhecia. Até mesmo a flor, infantil, em uma das unhas tentava lhe dar menos anos que os que tinha passado. Mas não era consciente, era quase irracional. Caminhou até o fundo e se sentou, próxima à parede. Pegou o caderno rosa com um gatinho na capa, mais uma tentativa insensata de tentar fazer parte, talvez. Olhou atenciosamente à mestra na frente e se deliciou com cada momento da aula que se seguia. É, era caloura novamente...