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domingo, 8 de janeiro de 2012

(Des)Serviço bancário

Foi ao banco. Ao chegar, procurou a atendente.
- Oi, pedi um novo cartão, queria saber se chegou.
- Só um minuto. Pode me emprestar seus documentos?
- Claro. Aqui está.
A atendente, com os documentos na mão, abriu a porta onde ficavam guardados os cartões. Procurou no P, até que encontrou o cartão da cliente: Paula Fernandes.
- Paula, neste envelope está o cartão e neste outro, a senha. Você pode desbloquear o cartão no caixa automático e, qualquer dúvida, é só me chamar.
- Tudo bem, obrigada.
E se dirigiu ao caixa. Inseriu o cartão, digitou a senha do envelope e, para que fosse desbloqueado, o caixa automático pediu que confirmasse o ano de nascimento do titular. "1985", digitou. "Não confere", avisou o caixa. "Será que digitei errado?", pensou. E repetiu os quatro dígitos: "1985". "Não confere", setenciou, mais uma vez, o caixa. Cancelou a operação e começou novamente. Desta vez, depois da senha, o caixa pediu o dia do nascimento do titular da conta. "25", digitou. "Não confere". "Ué, o que será que está acontecendo", pensou. E decidiu chamar a atendente.
- Moça, não está dando certo.
- Você é a titular da conta?
- Sim.
- Deixa eu ver no sistema, então. Posso pegar seus documentos novamente?
- Claro.
- Seu nome é Paula Fernandes mesmo?
- Não. Paula de Assis Fernandes.
- E quando pediu o ano você digitou 1985?
- Sim - respondeu, enquanto se perguntava se a atendente realmente acreditava que ela não se lembraria da data em que nasceu.
- E o dia, 25?
- Isso.
- Ué, não sei o que está dando errado... Deixa eu ver...
E, depois de mexer por quase cinco minutos no sistema do banco, olhou-me, com cara de espanto.
- Paula! Esse cartão não é seu! É de outra Paula Fernandes!
- Nossa! Outra? Aqui em Campo Mourão?
- Sim. Ai, me devolve aqui os envelopes. Nossa, será que ela não vai ficar brava? Ai, meu Deus...
- Ixi... Mas quantos anos ela tem?
- É de 1986.
- Ahm... - respondeu, enquanto pensou que a atendente tinha lhe dado a primeira das informações, caso estivesse mal intencionada. Pensou, também, que talvez tivessem entregado o seu cartão à Paula errada. E se ela ficasse devendo em seu nome? E se alguma coisa desse errado? E se... - Moça, e se entregaram o meu cartão a ela?
- Verdade! Vou entrar em contato com ela e ligo depois para você, pode ser?
- Pode. Ah, mas não vai ter perigo, né. Ela não vai conseguir desbloquear, já que não nasceu nem em 1985 nem no dia 25...
- Não, ela nasceu no dia 03.

...

Ainda bem que a Paula em questão não era mal intencionada...

terça-feira, 28 de junho de 2011

Micro-ondas

Ganhei da minha mãe, na última viagem a Curitiba, um micro-ondas. E o trouxemos, eu e Matheus, no ônibus, junto com tantas outras coisas que foram cuidadosamente amontoadas em caixas pela minha mãe. Chegamos às 6 e pouco da manhã, como de praxe, e resolvemos começar a guardar as coisas. O micro-ondas foi o primeiro a ganhar destino. Ficou na mesa da cozinha, ao lado da tomada. Perfeito.
À noite cheguei tarde da academia e não tínhamos feito compras. Nada para comer. Um frio horrível lá fora. O Matheus se prontificou (depois de eu ter pedido com cara de choro) a ir comprar alguma coisa. Voltou com leite, achocolatado e pipoca. De micro-ondas.
Quando o micro-ondas foi ligado e teve início o barulho característico de funcionamento, o Pingo, meu cachorro, ficou preocupado. Orelhas em pé, atento. Rodeava a mesa, à procura da origem do som. Foi quando começou o estouro das pipocas. O Pingo, a princípio, assustou-se. E decidiu chegar perto, aos poucos. Como a mesa é alta, ficou sobre duas patas. E olhava, tentando entender o que era aquilo.
Pipoca pronta, pegamos o pacote e fomos ao sofá. O Pingo, que sempre pede comida, olhava, incrédulo. Demorou para que se aconchegasse. Mas se aconchegou. Deitou entre mim e o Matheus e sossegou. Até que a pipoca acabou e resolvemos estourar mais... Um dia ele entende o funcionamento da coisa, quem sabe!

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Falsidade ideológica

Chego à esteira onde a bagagem deve ser retirada e aguardo. Pego a minha mala, a esteira continua a rodar. Um por um, meus companheiros de voo pegam seus pertences e se vão. E eu, ali, parada. Além da mala, aguardava um atabaque. Não, não era meu. Era uma encomenda. Que tinha sumido. A esteira continuava a rodar, mas nada mais estava nela. Ninguém mais ao meu lado.
- E agora, o que eu faço - pensei.
Olho para os lados. À minha direita se aproxima um atendente da empresa aérea.
- Falta alguma coisa, moça?
- Falta. Meu atabaque.
- Atabaque? - me pergunta, com uma expressão que não consegui definir se era susto ou dúvida.
- É, uma espécie de tambor...
- Eu sei o que é um atabaque! Mas você trouxe um?
- Trouxe.
- Tudo bem, vou verificar o que aconteceu. Você pode sentar ali e aguardar que logo a chamo.
Sentei. E esperei. E esperei. E esperei. Já estava bem cansada de esperar quando aquele som de alerta característico de aeroportos, para que as pessoas prestem atenção na mensagem, toca.
- Senhora Paula Fernandes, por favor dirija-se ao balcão de atendimento da empresa tal.
Levantei, peguei a mala e fui. Quando já estava perto o suficiente do balcão para ouvir o que os atendentes conversavam, avistei o rapaz que havia me atendido anteriormente.
- Viu, não é ela. Olha ali - disse ele.
- Onde? - perguntaram outras três atendentes que o acompanhavam.
- Ali, vindo em nossa direção - e apontava para mim.
- Onde? - procurando além de mim, como se eu não estivesse ali.
- Ali - e caminhou até mim, com o atabaque nas mãos - viram só, eu disse que não era ela.
- Aaaaaaaaaaaaaah... - exclararam, em uníssono de decepção, enquanto guardavam algo que pareciam bloquinhos de papel e canetas.
- Moça, tá aqui seu atabaque. Elas acharam que você era a cantora, sabe? Me dá um autógrafo? - e riu.
Ri também, de entender o porquê de tanta decepção. Imagine, uma Paula Fernandes que perde um atabaque... Vai que decidiu mudar o estilo?!

sábado, 5 de março de 2011

Sem superstição

superstição s. f. 1. Sentimento de veneração religiosa fundada no temor ou ignorância e que conduz geralmente ao cumprimento de falsos deveres, a quimeras, ou a uma confiança em coisas ineficazes. 2. Opinião religiosa fundada em preconceitos ou crendices. 3. Presságio que se tira de acidentes e circunstâncias meramente fortuitas.



Casou de branco, como manda o figurino. Em uma comemoração pública, como é de se esperar. Manteve a castidade; só a entregaria ao homem de sua vida depois do 'sim' no altar. Escolheu minuciosamente cada detalhe, cada pessoa, cada flor de seu buquê. Dispensou a chuva de arroz, não acreditava que aqueles grãos lhes trouxessem energia positiva. Arroz simbolizava frutificação, prosperidade, fertilidade, saúde, riqueza e felicidade, mas para os chineses e hindus, e certamente ela não era um ou outro. Esqueceu-se do nome das amigas na barra de seu vestido, tampouco quis jogar buquê. Se não foi preciso que ela pegasse um buquê para estar ali, àquela hora, as amigas também não precisariam. Entretanto, lembrou-se de, primorosamente, preparar um arranjo para cada uma das solteiras presentes. Como uma lembrança, pensou. Certificou-se de que teria um sino, uma bíblia e de que as alianças estariam lá. O ritual seria completo, perfeito, intangível. Se não fosse um pequeno detalhe. Mínimo, ínfimo. Imperceptível a olhos sem superstição, mas que fizeram os da noiva transbordar. Antes da cerimônia, num ímpeto, o noivo entrou em seu quarto e viu, pendurado, parte de seu vestido. A causa mortis do brilhantismo da festa fora decretada. O que restava, agora, era chorar.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Gay. Por minha causa.

Cena um (ao telefone)
- Oi!
- Oi, tudo bom?
- Tudo. Você me ligou?
- É, liguei, queria saber se você não quer fazer alguma coisa hoje...
- Heim, esse barulho ao fundo... é água? - pausa para perceber que a lua brilha lá fora e não há o menor sinal de chuva por perto - Você está tomando banho?
E cai na gargalhada.
- Estou, por que?
- Como assim por que? Você está tomando banho e atende ao celular no banho? Você está falando comigo enquanto toma banho? Meu, me liga hora que você sair, pode ser?
- Beleza.
E desligam. E caem, os dois, dessa vez, na gargalhada. Cada um em seu canto.

Cena dois (conversa no MSN)
Fulano diz:
Passei por gay hoje por sua causa.
Paula diz:
Ahm?
Fulano diz:
Estava voltando pra casa e lembrei daquele dia que atendi sua ligação e eu estava tomando banho. Aí dei risada sozinho. Nessa hora um cara passa e acha que dei risada para ele, e sorri de volta...
.
É... abalando corações!

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

A gente

A gente não escolhe gostar, a gente gosta e ponto. Era bem mais fácil gostar de alguém que a gente sabe que gosta da gente. Sem dúvida, a primeira opção. Todo mundo gosta de ser primeira opção. Mas a gente parece que gosta de sofrer, não sei. Gosta de viver de dúvidas, cheio de incertezas. A gente gosta da conquista, muito mais que do gostar, mesmo. A gente tinha que mudar. Porque assim, a gente sofre. Muito.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Descobri que não posso ter filhos

Não, não fiz nenhum exame. Descobri isso há alguns minutos. Meu primo de 14 anos está passando a semana na minha casa. Almoçamos e deixei-o na esquina de cima da minha casa. "Você acha que consegue abrir o portão, Luquinhas? Tranca a porta, direitinho, e me dá um toque quando entrar em casa, tudo bem?". E vim para o trabalho. E nada do toque. E nada do toque. E nada do toque. E começou a chuviscar. "E se ele não conseguiu abrir a porcaria do portão, que vive emperrando? E se ele está na chuva? E se alguém pegar ele?".
Começou a me dar palpitações. "Vou para o jornal ou volto para casa?". Suei frio. "Acho melhor ligar para ele". Caixa de mensagens. "Droga. Porcaria de celular, de que adianta eu colocar créditos se nem ligado ele está?". Decidi que era melhor ficar calma. Se até chegar ao jornal ele não tivesse ligado, pediria para alguém ir, de carro, comigo, até em casa. "Falta só meia quadra... ai, Luquinhas, cadê o toqueee?". Olhei no celular, vai que havia tocado e eu nem tinha visto. Nada. Coloquei no bolso, mais fácil de perceber. Nada. Quase na porta do jornal, com o coração na mão, resolvi olhar de novo. Uma chamada não atendida. Olhei, número do Lucas. Alívio. Muito alívio. Alívio mesmo. Ufa. Ele está bem. Meu bebê (?!) está bem. Isso que nem é meu bebê, mesmo... Imagine quando tiver um!

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Flight 956

Não era exatamente triste, mas também não era feliz. Faltava algo, sentia. Melhor, faltava alguém. Alguém a quem amasse e que também lhe amasse. Alguém em quem pensar até o sono vir e quando acordar. Alguém a quem mandar flores, ligar só para dizer que sente saudades, ir ao cinema. Faltava alguém. Ia bem no trabalho, ia bem na família. Mas sabia, faltava alguém. Até que a conheceu.
Na verdade, uma amiga lhe passou seu contato. Sabia que tinham interesses em comum e pensou em apresentar os dois. Ele, um argentino que vivia em Buenos Aires. Ela, uma russa, morando em Nova Iorque. Conversaram por pouco tempo pelo MSN. Ela não entendia muito de espanhol, tampouco ele de inglês. E perderam o contato. Até três meses atrás.
Estava à toa em frente ao computador quando uma janelinha se abriu. Era ela. Voltaram a conversar, ela já entendia sua língua. Já podiam começar a escrever sua história, em um único idioma. Ela lhe disse, então, que estava a caminho de Buenos Aires para assistir a um show em uma cidade ali perto. De um cantor que os dois gostavam, Indio Solari. Conheceram-se. Amaram-se. Agora, nada mais faltava.
Contudo, ela tinha a sua vida. E precisava voltar. Ele a acompanhou até o aeroporto e, em sua mente, pedaços da música. "Sua beleza como um flash... o tempo dirá... eu sei que você vai voltar". Com o coração na mão, despediu-se. Ela partiu. Ironia da vida, no voo 956.





No era exactamente triste, pero también no era feliz. Algo le faltava, el sentía. Mejor, faltava alguien. Alguien a quien amar y que tambien lo amaba. Alguien em quien piensar hasta el sueno venir y cuando despertar. Alguien para enviar flores, llamar para decir que siente su falta, ir al cine. Faltava alguien. Ia bien al trabajo, ia bien en la familia. Pero sabía, faltava alguien. Hasta conocerla.
En la realidad, una amiga le pasó su contacto. Sabía que tenian interes en comun y penso en presentar los dos. El, un argentino que vivía en Buenos Aires. Ella, una rusa, viviendo em Nueva York. Hablaran poco tiempo por el MSN. Ella no entendía mucho español, tampoco el inglés. Y perderan contacto. Hasta tres meses.
El estaba sin rumbo fije en el equipo cuando se abre una ventana. Era ella. Volvieron a hablar, ella ya entendía su idioma. Ya podían empezar a escribir su historia en un solo idioma. Ella le dijo, entonces, que estaba a camino de Buenos Aires para asistir a un concierto en una ciudad cercana. Un cantante que tanto le gustaba, Indio Solari. Se conocieron. Ellos se amaron. Ahora, nada mas faltaba.
Sin embargo, ella tenía su vida. Y necesitaba volver. El la acompañó hasta el aeropuerto y, en su miente, partes de la música. “
Tu belleza es como un resplandor... el tiempo dirá... yo sé que vos vas a regresar”. Con su corazón en las manos, se despedió. Ella se fué. Ironía de la vida, en el vuelo 956.

Desculpem pelos erros no espanhol, não sou muito boa. Para um amigo especial, porque sua história de amor merece ser conhecida.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

(Sub)traída

Prezava pela sinceridade. Doesse a quem fosse. Até a si própria. Não negava os seus erros nem os jogava nas costas de terceiros. E vivia assim, assumindo as suas e, por vezes, as culpas alheias. Não tinha medo do medo e aproveitava cada respiro. Cada raio de luz, cada cheiro no ar. Ainda assim, por mais que quisesse, não conseguia evitar os sentimentos alheios. Talvez aceitasse situações desde que não precisasse conviver com a dor que causara. Talvez pensasse demais no que faria os outros sentirem antes de cada passo, cada olhar, cada intenção. Talvez, por isso, fosse subtraído, a cada dia, um pouco do brilho do seu olhar.

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Um pouco mais de humanidade

Eu, solenemente, juro consagrar minha vida a serviço da Humanidade (...) Praticarei a minha profissão com consciência e dignidade. A saúde dos meus pacientes será a minha primeira preocupação (...) Manterei o mais alto respeito pela vida humana, desde sua concepção. O texto acima faz parte do Juramento de Hipócrates, que todo bacharel em medicina precisa fazer para tornar-se, então, médico. Mas todos nós, brasileiros que usamos o Sistema Único de Saúde (SUS), sabemos que não é assim que a coisa funciona. É mais ou menos como o vereador Isidoro Moraes disse na última sessão da Câmara, quando a consulta é particular, o valor é exorbitante, e quando é pelo SUS, o atendimento é praticamente virtual. Colocar os sintomas no google e tentar descobrir o que tem é praticamente o mesmo. Ou melhor, dependendo da circunstância. É como o caso do menino de 14 anos que morreu no Rio com parada respiratória em agosto poque autoridades federal, estadual e municipal não decidiram, a tempo, quem cumpriria a decisão judicial de comprar um aparelho para ajudá-lo a respirar. Foram seis meses de empurra-empurra entre as autoridades para decidirem que alugaria o balão de oxigênio que salvaria a vida do menino. O aluguel sairia, por mês, R$ 520. A vida do menino não valia isso. Duas ou três consultas particulares, sim.

E a gente não precisa ir muito longe. Tampouco acreditar que a falha é apenas no serviço público. Conheço, aqui em Campo Mourão, mesmo, uma pessoa que estava com ‘problemas de evacuação’, por assim dizer, ou diarreia mesmo, em bom português, que pegou sua carteirinha do convênio e foi procurar um médico. Ele, depois, de lhe fazer perguntas absurdas como se queria ser um porquinho-da-granja ou um porquinho-do-mato, decidiu lhe passar uma lista de exames. Afinal, o que o paciente precisava era de uma dieta. Estava acima do peso. Entre os diversos exames, nenhum de fezes. Nenhum que pelo menos fingisse que ele havia se preocupado com o seu problema. Nada. Zero. O paciente teve que recorrer a outro médico, dessa vez no 24 Horas, porque a situação estava incontrolável, e dessa vez, sim, o problema foi resolvido.

Mais, uma mulher grávida teve atendimento negado pelo médico que acompanhava sua gravidez porque, depois de ter um sangramento e correr para uma consulta de emergência, ele disse que não poderia fazer nada caso ela não lhe pagasse. Adiantado. O médico sequer avaliou a possibilidade de que a paciente, que já se consultava com ele desde a descoberta da gravidez, não tivesse tido tempo de sacar o dinheiro da consulta, dada a gravidade de um sangramento durante uma gestação. Recusou-se. E a paciente teve que buscar o dinheiro para, então, ser atendida. E se não houvesse tempo de chegar? E se houvesse mais sangramento? E se o bebê não aguentasse? E se a mãe não aguentasse?

Nós, reles mortais, que não somos chamados de doutor a não ser que tenhamos doutorado, ficamos à mercê de uma pontinha de humanidade desses seres que, salvo raras exceções, se acham deuses. Que acreditam que uma vida não vale R$ 520. Mas que não ficariam intimidados em gastar milhões se fosse a vida de qualquer um de seus filhos.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Finally, I found you

Encontrei, depois de tanto tempo, você. Confesso que o procuro há tempos, desde que você decidiu excluir toda sua vida virtual do mapa. E hoje, numa tentativa quase absurda de achar um resquício cibernético que me desse notícias suas, digitei seu nome. Letra por letra, sem esquecer uma. Como se fosse possível, já que elas combinavam sempre de vir à minha mente. Vinham as letras, depois o sorriso e, então, o jeito meigo e doce que outrora me encantou. A propósito, eu já te disse que me encanto fácil? Foi assim a vida inteira. Difícil é o encantamento durar tanto tempo. Tempo.
Óbvio, você não se manteve o tempo todo intacto na minha mente. Mas o fato de eu te procurar tanto prova que, sim, o encantamento há. Sempre houve.
Pequenas coisas sempre me lembram você. As fotos de uma colega que ainda me irrita, mesmo à distância, porque era a ela quem você via. Alguém comentando sobre Kojak numa esquina qualquer. Um bom vinho com uma boa companhia. Ursinhos de pelúcia, sempre. Um sorriso bonito num alguém inseguro. E pronto, lá vem você fazer parte do meu dia.
Queria te contar que voltei a estudar inglês, que estou escrevendo um livro e organizando um casamento. Queria que soubesse que trabalho sozinha num jornal pequeno que cresce a todo vapor. Queria te falar que conheci Buenos Aires e que a cidade é linda. Mas eu queria muito mais saber o que você fez nesse tempo todo. Por onde andou, quem conheceu, quantas vezes se apaixonou. Queria te chamar pra sessões de filme lá em casa de novo, ficar cuidando da sua respiração e vendo, de canto de olho, cada movimento seu. Tanta coisa eu queria.
E hoje eu te encontrei. Meu coração, que sabia já o ritmo a seguir caso você estivesse ali, bateu mais forte. Como antes, como sempre. E minhas mãos tremeram quando os meus olhos constataram que você renasceu ao ciberespaço. Fucei, em tudo o que dava e em tudo o que podia. Admito, apesar do tum-tum-tum e da tremedeira, fiquei um pouco triste ao ver que, ao que me parece, você já não é mais o mesmo. Tampouco eu. Mesmo assim, hoje eu vou dormir feliz. Porque finalmente te encontrei.



"Um sorriso é algo inexplicável. Vem de dentro, enche a alma e incendeia o coração.
Um sorriso melhora um dia. Uma semana. Quiçá, uma vida.
Acredito que todos deveriam aprender a sorrir, mas sorrir de verdade.
Sorriso sincero, amigo, que acaba - ou pelo menos diminui - com qualquer dor.
Toda dificuldade se torna mais branda quando sorrimos.
O sorriso de um reencontro vale a distância e a ausência enfrentadas.
Um sorriso cativa, alegra, desarma. Nos deixa completamente sem defesa, à mercê da vontade alheia.
Sorrindo, todas as lembranças são boas. E cada segundo vivido é mais gostoso com um sorriso.
Se sorrir não vale a pena, então nada mais vale.
Você é como um sorriso. Sempre traz alegria. Faz toda a diferença no meu dia."

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Miscigenação

Numa roda de amigos, alguém grita:
- Ô, Oneis! Pega ali pra mim!
- Oneis? Por que Oneis?
- Porque ele é 'japoneis'!
Risos.
- E eu sou o Ânus. 'Italianus'.
Mais risos. De repente, o gay da roda se manifesta:
- E eu sou o Gays. 'Portugays'.
Pronto. Quase morrem de rir.

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Messenger

Zelinda diz:
sempre tive muito orgulho de vc

Paula Fernandes - Correio do Cidadão diz:
e eu da vó mais linda do mundooo

Zelinda diz:
e vc sabe disso
nem q eu tivesse pedido nao teria neta melhor!!!!!!!!!!!!!!
seu vô onde tiver tb se orgulha da neguinha dele.......

...

E precisa mais?

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Se a Justiça decidiu, quem sou eu pra contrariar?



Esse é o direito de resposta que o PT conseguiu, através da Justiça, que fosse colocado no site do PSDB. Original aqui.
(Tooooooooooooooooma!!!!)

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Erro de percurso

Aconteceu há alguns anos. Depois de anos esperando, fez uma das tão desejadas cirurgias. Suas amigas sempre souberam: queria reduzir os seios, excessivamente volumosos, e acabar definitivamente com a miopia que quase a cegava. E com o astigmatismo, também. Queria ver-se livre das lentes - as de contato, mais frequentes, e as dos óculos.
Depois de passar as férias na casa da mãe, ela voltava às aulas. E a cirurgia, almejada por longos anos, havia sido realizada. Uma tarde, na casa da amiga, lembrou-se de que não havia comentado com ela sobre o fato.
- Débora, te contei que finalmente fiz minha cirurgia?
- Não, sério? - disse, enquanto caminhou em direção à amiga. - Nossa, mas nem parece, não fez muita diferença - certificou, ao apalpar os seios da colega, que parecia assustada.
- É porque eu fiz a do olho.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

O sorriso de Maristela



Entramos no galpão onde o artesanato era vendido e logo a vi, à espreita. Cada passo nosso era vigiado pelos olhos atentos e, quando se percebia avistada, o pelo sorriso encabulado e a tentativa de esconder-se atrás da janela. Sorrateira, me dirigi em sua direção. O que me esperava do outro lado me encantou. "Qual o seu nome", perguntei, me preparando para indagar o que significava o verbete Ava-guarani. "Maristela."
Maristela, apenas Maristela. Talvez por estar na tribo, por conversar com uma indiazinha, me surpreendi porque seu nome era tão latino quanto o meu. Estrela do Mar, a pequena Maristela na aldeia que a cercava.
Agora, olhando melhor, não entendo meu espanto. Não apenas Maristela, mas toda a tribo perdia o jeito indígena. Ao invés de pinturas, penas e cocar, Maristela usava um conjunto de saia e blusinha azuis. Nos pés, que em outros tempos estariam descalços, um chinelo de dedo. Azul, também. O cabelo, parcialmente preso por uma presilha amarela. E uma tatuagem de chiclete em sua testa a deixavam tão longe de ser índia quanto qualquer um dos meus primos de sua idade.
Maristela não era a única, ali, que parecia fora do seu lugar. Nenhum índio da aldeia parecia como os que povoam nossa imaginação. O espanto se tornou ainda maior quando duas mulheres que acompanham a tribo nos contaram que tiveram que ensiná-los a fazer o artesanato que era da sua própria cultura. Foram reeducados culturalmente.
Tudo para manter vivo nosso imaginário. Parafraseando um amigo, por que não manter intacta a cultura deles nos livros? Assim como a dos gregos, dos maias ou outros povos? Por que não deixar que, como nós, evoluam? Melhor, por que fingir que ainda são os mesmos índios, donos primeiros das terras brasileiras? Por que querer acreditar que o meio, o tempo, o convívio conosco ou a sua própria curiosidade não os tornaram diferentes?
Estudar a língua? Sim, mas registrá-la, para que não morra. Assim como seus costumes, sua vida, o que ainda é possível preservar. E deixá-los seguir em frente. Como qualquer outro povo.
E pensar que, mesmo fora de contexto, mesmo não condizendo com o que imaginava, mesmo que não responda às minhas, às suas ou a outras expectativas, o sorriso de Maristela cativava a quem olhasse. E, como um objeto a ser imortalizado, ficou registrado pelas lentes e pela memória de quem estava ali, naquele dia.

sábado, 5 de junho de 2010

O fim - real - de uma fase

Depois de anos, o reencontro. Virtual, mas haviam se conhecido assim.
O amigo, outrora colorido, estava mais uma vez presente na sua vida - virtual. Combinam de encontrarem-se assim que possível, já que moram em cidades distantes. Ele, pensando em, talvez, lembrar dos velhos tempos, esquece-se da inocência de crianças. Sem pudores, mesmo porque o mundo virtual lhe permite intimidades que jamais a boa educação do 'pessoalmente' deixaria passar, pergunta:
- Preciso saber de uma coisa. Sexo?
- Feminino, nunca percebeu?

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Tem coisas... que só a dona Maria faz por você!

O celular toca.
- Oi, dona Maria, tudo bem?
Pausa para explicação. Dona Maria é minha avó, Zelinda, que não sei por que cargas d'água ganhou o apelido que carregou a vida toda, sendo chamada assim por filhos e netos.
- Oooo fia! Brigadão, viu? Amei o presente!
- Ah, a senhora gostou, dona Maria? Que bom! Chegou com cartão?
- Chegou sim. Tá escrito 'Que seu dia possa ser melhor com cheirinho de café fresco'. Adorei. Mas me explica uma coisa... o que que é esse trem aqui da Folha de S. Paulo que você mandou junto?
- Oxi. Que trem, vó?
- Um jornal aqui que você botou dentro da caixa.
- Não, vozinha, eu não mandei, não. Comprei no submarino, na internet. Eles mandaram direto para a sua casa.
- Aaaah (surpresa!)...
Nisso ela comenta com alguém que está perto. Um dos meus priminhos, imagino.
- Uai, fio, sabia que esse trem veio direto da internet aqui pra casa?
Não aguento. Não consigo conter os risos.
- Minina! Do que você tá rindo? É da sua avó, é? Que falta de respeito! Uai! Veio da internet, não veio?