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domingo, 8 de abril de 2012

Cantora errada

Durante uma reunião numa chácara, entro no banheiro. Lá, apenas uma garotinha de cinco ou seis anos. Talvez sete. Que me fita atenciosamente e exclama, certeira:
- Eu tenho uma música sua!
Assusto-me, já que não a conheço. Não usava crachá algum, como saberia ela que meu nome é de uma cantora famosa?
- Aé? E que música minha você tem?
- Da Ivete Sangalo. Você é muito parecida com ela!

sábado, 24 de dezembro de 2011

Tempo

Não é no espelho que o tempo me assusta. É nas minhas crianças, que, confesso, quase já não são mais crianças. O tempo é cruel demais quando deixa que elas cresçam sem que eu acompanhe, sem que eu saiba. Sem que eu veja, dia a dia.
Porque, no espelho, o tempo não me machuca tanto. Mesmo que não seja mais a mesma e que a proximidade com o não-sei-o-que me assuste. Porque, pra mim, enquanto houver tempo, estou no lucro. Mas o tempo deles não é o meu. É longe de mim. E dói, como dói.



*Acho que o esquema é ir pra Terra do Nunca...

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Ausência de coragem

Eu tenho medo de perder você. Tanto que dói, tanto que nem sei. Tenho medo do não-ser de todos os planos que fiz e de todos que faria. Tenho medo de não ter mais seu sorriso, de você não querer mais meu abraço. Tenho medo até da falta que você já me faz. Tenho medo de pensar em encontrar um outro alguém com um tanto de você e outro tanto não. Tenho medo do vazio que me dá pensar nisso. Tenho medo do meu futuro sem você e do seu, sem mim.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Disritmia

O desejo até podia ser o mesmo, mas o tempo não. A vontade de estar perto, de estar junto, de construir uma vida a dois era mútua. Mas ele queria agora, ela não. Ela queria o mundo. Queria voar, descobrir e se descobrir. E queria ele, depois disso. Ele tinha certeza e pressa. Principalmente pressa. Queria ela, casar com ela, filhos dela, envelhecer ao lado dela. Tudo agora. E, por um tempo, ela também queria. Ou achava que queria.
Decidiu partir. A cidade pequena a abafava, sufocava. Talvez pelo calor, talvez pelo tanto tempo sem nada. Precisa de desafios, obstáculos, objetivos. Precisava construir algo. E o deixou. Não por muito tempo, pensou. Mas não por pouco, também. Ele precisava aprender que o mundo ia além dela. Que era grande, enorme. Que era possível ser feliz, também, sem ela.
Mas ela o queria bem. Queria-o por perto. Mesmo que o perto ainda fosse longe. Ajudou que ele se encontrasse. Buscasse um rumo melhor, um caminho mais amplo. Acreditasse que, sim, ele também podia construir o seu mundo. E que, com seus mundos mais concretos, seus caminhos poderiam voltar a se cruzar. Porque havia o desejo mútuo de passarem uma vida juntos.
Mas ele tinha pressa. E certeza. E vontade de tudo agora. Mal começou a trilhar a nova estrada e substituiu ela. Fez novos planos e, sem planejar nada, casou, engravidou, envelheceu. Longe dela. Que aprendeu a voar, a descobrir o mundo. E se descobrir a cada dia.

terça-feira, 28 de junho de 2011

Micro-ondas

Ganhei da minha mãe, na última viagem a Curitiba, um micro-ondas. E o trouxemos, eu e Matheus, no ônibus, junto com tantas outras coisas que foram cuidadosamente amontoadas em caixas pela minha mãe. Chegamos às 6 e pouco da manhã, como de praxe, e resolvemos começar a guardar as coisas. O micro-ondas foi o primeiro a ganhar destino. Ficou na mesa da cozinha, ao lado da tomada. Perfeito.
À noite cheguei tarde da academia e não tínhamos feito compras. Nada para comer. Um frio horrível lá fora. O Matheus se prontificou (depois de eu ter pedido com cara de choro) a ir comprar alguma coisa. Voltou com leite, achocolatado e pipoca. De micro-ondas.
Quando o micro-ondas foi ligado e teve início o barulho característico de funcionamento, o Pingo, meu cachorro, ficou preocupado. Orelhas em pé, atento. Rodeava a mesa, à procura da origem do som. Foi quando começou o estouro das pipocas. O Pingo, a princípio, assustou-se. E decidiu chegar perto, aos poucos. Como a mesa é alta, ficou sobre duas patas. E olhava, tentando entender o que era aquilo.
Pipoca pronta, pegamos o pacote e fomos ao sofá. O Pingo, que sempre pede comida, olhava, incrédulo. Demorou para que se aconchegasse. Mas se aconchegou. Deitou entre mim e o Matheus e sossegou. Até que a pipoca acabou e resolvemos estourar mais... Um dia ele entende o funcionamento da coisa, quem sabe!

terça-feira, 21 de junho de 2011

Embriaguez

O pouco vinho necessário para soltar meu riso evidencia, também, o rubor da minha face. Entre os passos que vem e vão, mal consigo ver as cores. Tento fingir que estou bem, mesmo que, na verdade, tudo se embaralhe. Preciso realçar os 29 que não tenho. Então rio, rio muito. As gargalhadas ocultam o meu estado etílico. Ajudam-me a ter coragem de fitar, mesmo que eu quisesse fugir.

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Sobre o descanso merecido

Queria o contrário. Férias o ano inteiro e quinze dias de trabalho, para compensar aquele descanso todo...

terça-feira, 3 de maio de 2011

Reticente

Com você, tudo parece mais fácil. O mundo tem menos problemas, as piadas têm mais graça. As horas correm, mesmo que queiramos, na verdade, que o tempo pare. Com você, qualquer lugar é bom, qualquer céu é mais estrelado. As cores são mais vivas e a música, melhor. Com você, eu pareço não ter fim. O triste é que, com você, também não vejo futuro em mim.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Ponto, sem vírgula

É difícil, mas a gente precisa entender quando não dá mais. Quando faz mal pra gente, quando a falta e a dor são maiores que o que a gente sente. É sério, eu gosto de você. Mas você não é pra mim.

quinta-feira, 31 de março de 2011

Póstumo

Ela acordou com o sorriso no rosto, dando-lhe um beijo de bom dia. Era o seu dia e ela queria que ele se sentisse especial. Ao abrir os olhos, ele viu o sorriso e logo entendeu.
- Hoje não, amor. Hoje não.
Não, ele não gostava daquele dia. Para ele, o dia era de resguardo. Sigilo, prece, aquietação. Sua alma, presa, queria gritar. Queria que gritasse, que chorasse, para que, enfim, esquecesse. Mas ele preferia calar. Não gritava, não chorava e as memórias lhe martelavam a cabeça. Como esquecer de algo que o acompanhara por toda a vida?
Tudo aconteceu dois meses antes do seu nascimento. O pai, taxista, havia sumido. Ninguém sabia do seu paradeiro. A mãe esperou por longos dois meses. Ao pai e ao filho, que estava por vir. O filho chegou e, com ele, a alegria do nascimento de uma criança tão esperada. Mas o pai não estava ali para ver que era a sua cara. Para ajudá-lo nos primeiros passos, com sua primeira bicicleta e ensinar a conquistar a primeira namorada. Não, o pai havia sumido. Até aquele dia.
Enquanto o médico felicitava a mãe pela chegada do menino, um parente entra pela porta com ares de velório. Haviam encontrado o pai da criança. O corpo dele. Estava morto. Morreu porque alguém imaginou que sua vida valia menos que seu automóvel. Morreu, mas o carro não estava mais ali.
- Hoje não, amor. Hoje não. Você sabe, não gosto de comemorar meu aniversário. Amanhã, se você quiser, eu aceito os parabéns. Mas hoje não, por favor.

sexta-feira, 11 de março de 2011

Onipresente

Queria estar em todos os lugares, em todos os tempos. Queria os amigos e os amigos dos amigos. Queria o mundo e não se importava em pedi-lo, ao invés de ir atrás. Tinha o dom da inteligência e nunca precisou de esforço. Ria das limitações dos outros e não percebia que também as tinha.
Todos os dias, antes de sair, vestia sua melhor máscara. Tinha uma para cada ocasião, uma para cada sorriso novo. Amava com facilidade imensa e de maneira tão expôntanea que sempre parecia verdade. Tinha o dom da inteligência e nunca precisou de esforço. Lutava contra o preconceito dos outros que via em si próprio, mas fingia não existir.
Em casa escolhia a máscara viril, sóbria, que mantinha o respeito dos entes queridos. Mal chegava ao portão e já a escondia. Gostava mais da intelectual, porém menos séria. E da colorida, quando resolvia que era hora de festa. Subestimava aos outros frequentemente, porque conhecia as próprias incapacidades. Tinha o dom da inteligência e nunca precisou de esforço. E, sem esforço, conseguia o que queria. Porque aqueles de quem ria, lutava e subestimavam lhe tinham estima e ajudavam sempre que podiam. Como estava sempre em todos os lugares, em todos os tempos, convencia a alguns. Depois a outros. É, tinha o dom da inteligência e nunca precisou de esforço.

sábado, 5 de março de 2011

Sem superstição

superstição s. f. 1. Sentimento de veneração religiosa fundada no temor ou ignorância e que conduz geralmente ao cumprimento de falsos deveres, a quimeras, ou a uma confiança em coisas ineficazes. 2. Opinião religiosa fundada em preconceitos ou crendices. 3. Presságio que se tira de acidentes e circunstâncias meramente fortuitas.



Casou de branco, como manda o figurino. Em uma comemoração pública, como é de se esperar. Manteve a castidade; só a entregaria ao homem de sua vida depois do 'sim' no altar. Escolheu minuciosamente cada detalhe, cada pessoa, cada flor de seu buquê. Dispensou a chuva de arroz, não acreditava que aqueles grãos lhes trouxessem energia positiva. Arroz simbolizava frutificação, prosperidade, fertilidade, saúde, riqueza e felicidade, mas para os chineses e hindus, e certamente ela não era um ou outro. Esqueceu-se do nome das amigas na barra de seu vestido, tampouco quis jogar buquê. Se não foi preciso que ela pegasse um buquê para estar ali, àquela hora, as amigas também não precisariam. Entretanto, lembrou-se de, primorosamente, preparar um arranjo para cada uma das solteiras presentes. Como uma lembrança, pensou. Certificou-se de que teria um sino, uma bíblia e de que as alianças estariam lá. O ritual seria completo, perfeito, intangível. Se não fosse um pequeno detalhe. Mínimo, ínfimo. Imperceptível a olhos sem superstição, mas que fizeram os da noiva transbordar. Antes da cerimônia, num ímpeto, o noivo entrou em seu quarto e viu, pendurado, parte de seu vestido. A causa mortis do brilhantismo da festa fora decretada. O que restava, agora, era chorar.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

A gente

A gente não escolhe gostar, a gente gosta e ponto. Era bem mais fácil gostar de alguém que a gente sabe que gosta da gente. Sem dúvida, a primeira opção. Todo mundo gosta de ser primeira opção. Mas a gente parece que gosta de sofrer, não sei. Gosta de viver de dúvidas, cheio de incertezas. A gente gosta da conquista, muito mais que do gostar, mesmo. A gente tinha que mudar. Porque assim, a gente sofre. Muito.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Bonito

Você não tem ideia, querido, do quanto lhe quero bem. Do quanto seu sorriso é fundamental para trazer alegria aos meus dias. O seu olhar, o seu cheiro, o seu shorts. Adoro quando ganho, porventura, um abraço seu. Passar o final de semana sem notícias suas é quase uma tortura. Não ter a certeza de você me fere. Me mata.
Fico puxando os assuntos mais bobos só para falar com você. Só para ter a impressão de que você quer, tanto quanto eu, atenção. Mais, que você precisa da minha atenção. Porque me sinto boba querendo, só eu, a sua.
Queria ser parte da sua vida. Queria dormir no seu abraço e acordar com seu sorriso. Queria dividir todo o meu mundo com você. E conhecer plenamente o seu. Você é especial demais, Bonito, e eu queria muito que você soubesse disso. Do quanto gosto de você. Porque tenho certeza de que você não tem a mínima ideia.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Quando o silêncio é a melhor opção¹

Numa roda de amigos, conversa sobre nomes que cada um considerava feio.
- Ah, eu não gosto de Francisco.
- E eu de João.
- Ah, não, gente, mas não tem pior que José. José é muito feio! - exclama uma das amigas. Duas outras, meio em desespero, replicam:
- Déia! O nome do Jota é José!
Parênteses. Jota é um dos colegas na roda, um piadista que se dá bem com todo mundo.
- Ai, sério Jota? Desculpa... Mas pensa, podia ser pior, podia ser José Antônio.
- Déia, fica quieta. O nome dele é José Antônio!

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Confessio*

Quando o som que sai da sua boca encontra os meus ouvidos, me transporta pra um mundo que eu não imaginei que conheceria, um dia. De certa maneira me sinto parte da sua vida. Do que você guardou, de bom e de ruim. Daquilo que lhe fez diferença. Do que construiu e moldou a sua nada fraca personalidade.
Conhecer seus amores e devaneios, suas dores e afins me faz sentir especial. Como se fosse parte de você, como se entrasse na sua história. Como se pudesse pegar um pedaço da minha e colar na sua. Pra me considerar tão especial quanto as pessoas que você mencionou. Numa tentativa de iludir a mim mesma, de querer que você também tivesse a mim numa dessas histórias.
Por outro lado, te sentir tão humano me dá certa força. Perceber que você também tem medos e angústias me faz imaginar que eu posso, talvez, ser útil. Trazer alguma segurança, dividir as neuras, não sei. Ou apenas uma companhia para matar o tempo, assistir à Audrey.
Poder te entender, te conhecer mais a fundo, é bom demais. Saber que você acredita que perdeu seu grande amor dá medo. E se o tempo resolver voltar? E se me causar mágoa? E se... E se você perceber que foi esse e tantos outros 'erros acertados' que te colocou no meu caminho. Que me colocou no seu caminho. E que pode fazer com que a gente seja feliz. Enquanto dure.



* do latim, confissão.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Primeiro beijo

Sempre guardo na memória o primeiro beijo. Não só daquele de quanto eu tinha 15 anos, ao lado do computador, mas todo primeiro beijo. Beijo é que nem quebra-cabeça: você precisa por a peça certa no lugar certo. E o primeiro beijo tem que ter encaixe. É ele que vai te dizer para seguir em frente ou parar por ali mesmo. Eu queria uma vida de primeiros beijos. O triste é que, quando o encaixe acontece, o momento deveria ficar ali, para sempre. Sem fim.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Insubstituível

Ninguém é soberano. Todo mundo, por mais falta que faça, pode ser substituído. E essa é uma das mais bonitas - e também doloridas - verdades da vida. Por isso que conseguimos seguir em frente com a perda de um ente querido. Esse é o mesmo motivo pelo qual, depois de termos nos descabelado de tanto chorar quando um amor nos abandona, conseguimos encontrar outros olhares e sorrir.
Assim, uma pessoa sensata jamais exigiria de alguém que escolhesse entre si mesmo e outrem. Porque as pessoas, assim como o tempo, são efêmeras. Suas ideias mudam, suas escolhas também. Seus cabelos, suas unhas, seus gostos, sua vida. Tudo está o tempo todo em rotação e translação, junto com a Terra.
Mesmo assim, cada pessoa nova no nosso caminho vem a somar, não a, necessariamente, substituir. Isso cabe às nossas escolhas. Até mesmo à escolha de isolar-se, ofender-se, distanciar-se. Cada um sabe de si o que pode ou não aguentar. E quando deve, ou não, mudar. Substituir. Ser substituído. Seguir.

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Um pouco mais de humanidade

Eu, solenemente, juro consagrar minha vida a serviço da Humanidade (...) Praticarei a minha profissão com consciência e dignidade. A saúde dos meus pacientes será a minha primeira preocupação (...) Manterei o mais alto respeito pela vida humana, desde sua concepção. O texto acima faz parte do Juramento de Hipócrates, que todo bacharel em medicina precisa fazer para tornar-se, então, médico. Mas todos nós, brasileiros que usamos o Sistema Único de Saúde (SUS), sabemos que não é assim que a coisa funciona. É mais ou menos como o vereador Isidoro Moraes disse na última sessão da Câmara, quando a consulta é particular, o valor é exorbitante, e quando é pelo SUS, o atendimento é praticamente virtual. Colocar os sintomas no google e tentar descobrir o que tem é praticamente o mesmo. Ou melhor, dependendo da circunstância. É como o caso do menino de 14 anos que morreu no Rio com parada respiratória em agosto poque autoridades federal, estadual e municipal não decidiram, a tempo, quem cumpriria a decisão judicial de comprar um aparelho para ajudá-lo a respirar. Foram seis meses de empurra-empurra entre as autoridades para decidirem que alugaria o balão de oxigênio que salvaria a vida do menino. O aluguel sairia, por mês, R$ 520. A vida do menino não valia isso. Duas ou três consultas particulares, sim.

E a gente não precisa ir muito longe. Tampouco acreditar que a falha é apenas no serviço público. Conheço, aqui em Campo Mourão, mesmo, uma pessoa que estava com ‘problemas de evacuação’, por assim dizer, ou diarreia mesmo, em bom português, que pegou sua carteirinha do convênio e foi procurar um médico. Ele, depois, de lhe fazer perguntas absurdas como se queria ser um porquinho-da-granja ou um porquinho-do-mato, decidiu lhe passar uma lista de exames. Afinal, o que o paciente precisava era de uma dieta. Estava acima do peso. Entre os diversos exames, nenhum de fezes. Nenhum que pelo menos fingisse que ele havia se preocupado com o seu problema. Nada. Zero. O paciente teve que recorrer a outro médico, dessa vez no 24 Horas, porque a situação estava incontrolável, e dessa vez, sim, o problema foi resolvido.

Mais, uma mulher grávida teve atendimento negado pelo médico que acompanhava sua gravidez porque, depois de ter um sangramento e correr para uma consulta de emergência, ele disse que não poderia fazer nada caso ela não lhe pagasse. Adiantado. O médico sequer avaliou a possibilidade de que a paciente, que já se consultava com ele desde a descoberta da gravidez, não tivesse tido tempo de sacar o dinheiro da consulta, dada a gravidade de um sangramento durante uma gestação. Recusou-se. E a paciente teve que buscar o dinheiro para, então, ser atendida. E se não houvesse tempo de chegar? E se houvesse mais sangramento? E se o bebê não aguentasse? E se a mãe não aguentasse?

Nós, reles mortais, que não somos chamados de doutor a não ser que tenhamos doutorado, ficamos à mercê de uma pontinha de humanidade desses seres que, salvo raras exceções, se acham deuses. Que acreditam que uma vida não vale R$ 520. Mas que não ficariam intimidados em gastar milhões se fosse a vida de qualquer um de seus filhos.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Lucky

Gostava era da plateia. Dos flashes, do glamour. Gostava de sentir-se o centro das atenções porque, quando fechava a porta do quarto sabia: estava sozinha. E estava porque escolheu. Porque assim quis. Porque preferia mergulhar numa realidade colorida que encarar a vida, nua e crua. Preferia acreditar nos contos de fada que narrava que olhar para o lado e ver que havia dor. E que causava dor. Porque lhe doía tudo isso.
Assim, com um copo de vodka na mão, fingia embriaguez. E o show começava. Mesmo que todos já soubessem o fim e ouvissem, a longa distância, os soluços vindos do seu quarto. Ou melhor, quase todos. Aqueles que precisavam ouvir os soluços também preferiam imaginar que eles não existissem. E ficavam calmos quando ela ligava o rádio e ouvia a sua música preferida. Aquela que definia a sua vida.