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terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Novos caminhos

Não passou a noite anterior acordada, de tão ansiosa, como antes. Tampouco preocupou-se em ver, com antecedência, como faria para estar lá, mesmo longe e com hora marcada. O passo, já firme, entretanto, tremeu ao entrar na sala. Cheia, de tantos rostos desconhecidos e completamente sem marcas. O tempo não passara por ali. Olhou para suas unhas que, sem perceber, tinham sido pintadas de um rosinha que talvez tentasse enganar àqueles que não conhecia. Até mesmo a flor, infantil, em uma das unhas tentava lhe dar menos anos que os que tinha passado. Mas não era consciente, era quase irracional. Caminhou até o fundo e se sentou, próxima à parede. Pegou o caderno rosa com um gatinho na capa, mais uma tentativa insensata de tentar fazer parte, talvez. Olhou atenciosamente à mestra na frente e se deliciou com cada momento da aula que se seguia. É, era caloura novamente...

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Elementar, meu caro...

Meu pai é gaúcho. Colorado e bom assador, como diz a placa que lhe demos, eu e meus irmãos, no Natal. E eis que conheço um rapaz, também gaúcho. Porém gremista. Quando as coisas começaram a ficar mais sérias, pensei diversas vezes em como contaria ao meu pai. "Pai, tenho uma notícia, mas ela pode ser boa ou ruim", pensava. Pois bem, comecei a namorar. Antes que meu pai descobrisse pelas redes sociais, decidi lhe contar. Via SMS.
"Paizinho, estou namorando. É um gaúcho."
Minutos depois, a resposta. Também por SMS.
"Que legal, filha! Fico feliz. Obs. Mas ele não é gremista, né?!"
.
Obviedades. O mundo está cheio delas!

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Sob a chuva

Olhou para a porta da frente e viu a chuva cair. Até se assustava com a força dos pingos, mas o sorriso era um convite para enfrentar a noite tempestuosa. Decidiu dar um passo à frente e caminhou para a água que vinha dos céus. Cada gota, por mais fria que estivesse, esquentava a sua alma. Há tempos desejava aquele momento. Não era exatamente assim que o havia imaginado, mas gostava do rumo que as coisas tomavam. Olhou para o lado e não o avistou. Parou. O sorriso ainda estava na porta, parecia não acreditar que ela aceitara o convite e agora estava na chuva. Olharam-se e ela virou. Queria aquelas gotas, aquela noite. Aquele sorriso. Caminhou ouvindo o som acústico das gotas e até fechou os olhos para sentir o momento na íntegra. Foi quando percebeu que, além das gotas, passos a acompanhavam. Abriu novamente os olhos e encarou aquele sorriso. Sorriu, timidamente. Ajeitou o cabelo molhado, segurou na mão do rapaz e seguiram, pela chuva.

...

* Um beijo pro Vinícius querido, que leu e aprovou antes da postagem! ;)

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Paredes

Nunca são só paredes. Quando você fecha a porta, não são as paredes que você deixa para trás. Não é por causa das paredes que seu coração aperta, seus olhos marejam. Existe vida além das paredes. A sua vida ficou gravada ali, durante dias, meses, anos. Cada detalhe que, além de você, apenas as paredes conhecem. É por isso que, mesmo com as manchas, as marcas, as infiltrações, aquelas paredes fazem falta. E ali, ante à porta fechada, resta esperar que as novas paredes possam presenciar tantas alegrias, ou até mais, que aquelas atrás da fechadura.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Disritmia

O desejo até podia ser o mesmo, mas o tempo não. A vontade de estar perto, de estar junto, de construir uma vida a dois era mútua. Mas ele queria agora, ela não. Ela queria o mundo. Queria voar, descobrir e se descobrir. E queria ele, depois disso. Ele tinha certeza e pressa. Principalmente pressa. Queria ela, casar com ela, filhos dela, envelhecer ao lado dela. Tudo agora. E, por um tempo, ela também queria. Ou achava que queria.
Decidiu partir. A cidade pequena a abafava, sufocava. Talvez pelo calor, talvez pelo tanto tempo sem nada. Precisa de desafios, obstáculos, objetivos. Precisava construir algo. E o deixou. Não por muito tempo, pensou. Mas não por pouco, também. Ele precisava aprender que o mundo ia além dela. Que era grande, enorme. Que era possível ser feliz, também, sem ela.
Mas ela o queria bem. Queria-o por perto. Mesmo que o perto ainda fosse longe. Ajudou que ele se encontrasse. Buscasse um rumo melhor, um caminho mais amplo. Acreditasse que, sim, ele também podia construir o seu mundo. E que, com seus mundos mais concretos, seus caminhos poderiam voltar a se cruzar. Porque havia o desejo mútuo de passarem uma vida juntos.
Mas ele tinha pressa. E certeza. E vontade de tudo agora. Mal começou a trilhar a nova estrada e substituiu ela. Fez novos planos e, sem planejar nada, casou, engravidou, envelheceu. Longe dela. Que aprendeu a voar, a descobrir o mundo. E se descobrir a cada dia.

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Falsidade ideológica

Chego à esteira onde a bagagem deve ser retirada e aguardo. Pego a minha mala, a esteira continua a rodar. Um por um, meus companheiros de voo pegam seus pertences e se vão. E eu, ali, parada. Além da mala, aguardava um atabaque. Não, não era meu. Era uma encomenda. Que tinha sumido. A esteira continuava a rodar, mas nada mais estava nela. Ninguém mais ao meu lado.
- E agora, o que eu faço - pensei.
Olho para os lados. À minha direita se aproxima um atendente da empresa aérea.
- Falta alguma coisa, moça?
- Falta. Meu atabaque.
- Atabaque? - me pergunta, com uma expressão que não consegui definir se era susto ou dúvida.
- É, uma espécie de tambor...
- Eu sei o que é um atabaque! Mas você trouxe um?
- Trouxe.
- Tudo bem, vou verificar o que aconteceu. Você pode sentar ali e aguardar que logo a chamo.
Sentei. E esperei. E esperei. E esperei. Já estava bem cansada de esperar quando aquele som de alerta característico de aeroportos, para que as pessoas prestem atenção na mensagem, toca.
- Senhora Paula Fernandes, por favor dirija-se ao balcão de atendimento da empresa tal.
Levantei, peguei a mala e fui. Quando já estava perto o suficiente do balcão para ouvir o que os atendentes conversavam, avistei o rapaz que havia me atendido anteriormente.
- Viu, não é ela. Olha ali - disse ele.
- Onde? - perguntaram outras três atendentes que o acompanhavam.
- Ali, vindo em nossa direção - e apontava para mim.
- Onde? - procurando além de mim, como se eu não estivesse ali.
- Ali - e caminhou até mim, com o atabaque nas mãos - viram só, eu disse que não era ela.
- Aaaaaaaaaaaaaah... - exclararam, em uníssono de decepção, enquanto guardavam algo que pareciam bloquinhos de papel e canetas.
- Moça, tá aqui seu atabaque. Elas acharam que você era a cantora, sabe? Me dá um autógrafo? - e riu.
Ri também, de entender o porquê de tanta decepção. Imagine, uma Paula Fernandes que perde um atabaque... Vai que decidiu mudar o estilo?!

sábado, 5 de março de 2011

Sem superstição

superstição s. f. 1. Sentimento de veneração religiosa fundada no temor ou ignorância e que conduz geralmente ao cumprimento de falsos deveres, a quimeras, ou a uma confiança em coisas ineficazes. 2. Opinião religiosa fundada em preconceitos ou crendices. 3. Presságio que se tira de acidentes e circunstâncias meramente fortuitas.



Casou de branco, como manda o figurino. Em uma comemoração pública, como é de se esperar. Manteve a castidade; só a entregaria ao homem de sua vida depois do 'sim' no altar. Escolheu minuciosamente cada detalhe, cada pessoa, cada flor de seu buquê. Dispensou a chuva de arroz, não acreditava que aqueles grãos lhes trouxessem energia positiva. Arroz simbolizava frutificação, prosperidade, fertilidade, saúde, riqueza e felicidade, mas para os chineses e hindus, e certamente ela não era um ou outro. Esqueceu-se do nome das amigas na barra de seu vestido, tampouco quis jogar buquê. Se não foi preciso que ela pegasse um buquê para estar ali, àquela hora, as amigas também não precisariam. Entretanto, lembrou-se de, primorosamente, preparar um arranjo para cada uma das solteiras presentes. Como uma lembrança, pensou. Certificou-se de que teria um sino, uma bíblia e de que as alianças estariam lá. O ritual seria completo, perfeito, intangível. Se não fosse um pequeno detalhe. Mínimo, ínfimo. Imperceptível a olhos sem superstição, mas que fizeram os da noiva transbordar. Antes da cerimônia, num ímpeto, o noivo entrou em seu quarto e viu, pendurado, parte de seu vestido. A causa mortis do brilhantismo da festa fora decretada. O que restava, agora, era chorar.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Gay. Por minha causa.

Cena um (ao telefone)
- Oi!
- Oi, tudo bom?
- Tudo. Você me ligou?
- É, liguei, queria saber se você não quer fazer alguma coisa hoje...
- Heim, esse barulho ao fundo... é água? - pausa para perceber que a lua brilha lá fora e não há o menor sinal de chuva por perto - Você está tomando banho?
E cai na gargalhada.
- Estou, por que?
- Como assim por que? Você está tomando banho e atende ao celular no banho? Você está falando comigo enquanto toma banho? Meu, me liga hora que você sair, pode ser?
- Beleza.
E desligam. E caem, os dois, dessa vez, na gargalhada. Cada um em seu canto.

Cena dois (conversa no MSN)
Fulano diz:
Passei por gay hoje por sua causa.
Paula diz:
Ahm?
Fulano diz:
Estava voltando pra casa e lembrei daquele dia que atendi sua ligação e eu estava tomando banho. Aí dei risada sozinho. Nessa hora um cara passa e acha que dei risada para ele, e sorri de volta...
.
É... abalando corações!

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Flight 956

Não era exatamente triste, mas também não era feliz. Faltava algo, sentia. Melhor, faltava alguém. Alguém a quem amasse e que também lhe amasse. Alguém em quem pensar até o sono vir e quando acordar. Alguém a quem mandar flores, ligar só para dizer que sente saudades, ir ao cinema. Faltava alguém. Ia bem no trabalho, ia bem na família. Mas sabia, faltava alguém. Até que a conheceu.
Na verdade, uma amiga lhe passou seu contato. Sabia que tinham interesses em comum e pensou em apresentar os dois. Ele, um argentino que vivia em Buenos Aires. Ela, uma russa, morando em Nova Iorque. Conversaram por pouco tempo pelo MSN. Ela não entendia muito de espanhol, tampouco ele de inglês. E perderam o contato. Até três meses atrás.
Estava à toa em frente ao computador quando uma janelinha se abriu. Era ela. Voltaram a conversar, ela já entendia sua língua. Já podiam começar a escrever sua história, em um único idioma. Ela lhe disse, então, que estava a caminho de Buenos Aires para assistir a um show em uma cidade ali perto. De um cantor que os dois gostavam, Indio Solari. Conheceram-se. Amaram-se. Agora, nada mais faltava.
Contudo, ela tinha a sua vida. E precisava voltar. Ele a acompanhou até o aeroporto e, em sua mente, pedaços da música. "Sua beleza como um flash... o tempo dirá... eu sei que você vai voltar". Com o coração na mão, despediu-se. Ela partiu. Ironia da vida, no voo 956.





No era exactamente triste, pero también no era feliz. Algo le faltava, el sentía. Mejor, faltava alguien. Alguien a quien amar y que tambien lo amaba. Alguien em quien piensar hasta el sueno venir y cuando despertar. Alguien para enviar flores, llamar para decir que siente su falta, ir al cine. Faltava alguien. Ia bien al trabajo, ia bien en la familia. Pero sabía, faltava alguien. Hasta conocerla.
En la realidad, una amiga le pasó su contacto. Sabía que tenian interes en comun y penso en presentar los dos. El, un argentino que vivía en Buenos Aires. Ella, una rusa, viviendo em Nueva York. Hablaran poco tiempo por el MSN. Ella no entendía mucho español, tampoco el inglés. Y perderan contacto. Hasta tres meses.
El estaba sin rumbo fije en el equipo cuando se abre una ventana. Era ella. Volvieron a hablar, ella ya entendía su idioma. Ya podían empezar a escribir su historia en un solo idioma. Ella le dijo, entonces, que estaba a camino de Buenos Aires para asistir a un concierto en una ciudad cercana. Un cantante que tanto le gustaba, Indio Solari. Se conocieron. Ellos se amaron. Ahora, nada mas faltaba.
Sin embargo, ella tenía su vida. Y necesitaba volver. El la acompañó hasta el aeropuerto y, en su miente, partes de la música. “
Tu belleza es como un resplandor... el tiempo dirá... yo sé que vos vas a regresar”. Con su corazón en las manos, se despedió. Ella se fué. Ironía de la vida, en el vuelo 956.

Desculpem pelos erros no espanhol, não sou muito boa. Para um amigo especial, porque sua história de amor merece ser conhecida.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

(Sub)traída

Prezava pela sinceridade. Doesse a quem fosse. Até a si própria. Não negava os seus erros nem os jogava nas costas de terceiros. E vivia assim, assumindo as suas e, por vezes, as culpas alheias. Não tinha medo do medo e aproveitava cada respiro. Cada raio de luz, cada cheiro no ar. Ainda assim, por mais que quisesse, não conseguia evitar os sentimentos alheios. Talvez aceitasse situações desde que não precisasse conviver com a dor que causara. Talvez pensasse demais no que faria os outros sentirem antes de cada passo, cada olhar, cada intenção. Talvez, por isso, fosse subtraído, a cada dia, um pouco do brilho do seu olhar.

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Eu ainda prefiro o cowboy... e você?

Bergmann, candidato do PSol ao Governo do Estado, está criando um murmurinho chamando os dois principais concorrentes à vaga de governador do Paraná, Osmar Dias e Beto Richa, de "tio cowboy e sobrinho playboy". Eu, entretanto, prefiro o tiozão... vejam esse vídeo e me digam a opinião de vocês!

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Finally, I found you

Encontrei, depois de tanto tempo, você. Confesso que o procuro há tempos, desde que você decidiu excluir toda sua vida virtual do mapa. E hoje, numa tentativa quase absurda de achar um resquício cibernético que me desse notícias suas, digitei seu nome. Letra por letra, sem esquecer uma. Como se fosse possível, já que elas combinavam sempre de vir à minha mente. Vinham as letras, depois o sorriso e, então, o jeito meigo e doce que outrora me encantou. A propósito, eu já te disse que me encanto fácil? Foi assim a vida inteira. Difícil é o encantamento durar tanto tempo. Tempo.
Óbvio, você não se manteve o tempo todo intacto na minha mente. Mas o fato de eu te procurar tanto prova que, sim, o encantamento há. Sempre houve.
Pequenas coisas sempre me lembram você. As fotos de uma colega que ainda me irrita, mesmo à distância, porque era a ela quem você via. Alguém comentando sobre Kojak numa esquina qualquer. Um bom vinho com uma boa companhia. Ursinhos de pelúcia, sempre. Um sorriso bonito num alguém inseguro. E pronto, lá vem você fazer parte do meu dia.
Queria te contar que voltei a estudar inglês, que estou escrevendo um livro e organizando um casamento. Queria que soubesse que trabalho sozinha num jornal pequeno que cresce a todo vapor. Queria te falar que conheci Buenos Aires e que a cidade é linda. Mas eu queria muito mais saber o que você fez nesse tempo todo. Por onde andou, quem conheceu, quantas vezes se apaixonou. Queria te chamar pra sessões de filme lá em casa de novo, ficar cuidando da sua respiração e vendo, de canto de olho, cada movimento seu. Tanta coisa eu queria.
E hoje eu te encontrei. Meu coração, que sabia já o ritmo a seguir caso você estivesse ali, bateu mais forte. Como antes, como sempre. E minhas mãos tremeram quando os meus olhos constataram que você renasceu ao ciberespaço. Fucei, em tudo o que dava e em tudo o que podia. Admito, apesar do tum-tum-tum e da tremedeira, fiquei um pouco triste ao ver que, ao que me parece, você já não é mais o mesmo. Tampouco eu. Mesmo assim, hoje eu vou dormir feliz. Porque finalmente te encontrei.



"Um sorriso é algo inexplicável. Vem de dentro, enche a alma e incendeia o coração.
Um sorriso melhora um dia. Uma semana. Quiçá, uma vida.
Acredito que todos deveriam aprender a sorrir, mas sorrir de verdade.
Sorriso sincero, amigo, que acaba - ou pelo menos diminui - com qualquer dor.
Toda dificuldade se torna mais branda quando sorrimos.
O sorriso de um reencontro vale a distância e a ausência enfrentadas.
Um sorriso cativa, alegra, desarma. Nos deixa completamente sem defesa, à mercê da vontade alheia.
Sorrindo, todas as lembranças são boas. E cada segundo vivido é mais gostoso com um sorriso.
Se sorrir não vale a pena, então nada mais vale.
Você é como um sorriso. Sempre traz alegria. Faz toda a diferença no meu dia."

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Miscigenação

Numa roda de amigos, alguém grita:
- Ô, Oneis! Pega ali pra mim!
- Oneis? Por que Oneis?
- Porque ele é 'japoneis'!
Risos.
- E eu sou o Ânus. 'Italianus'.
Mais risos. De repente, o gay da roda se manifesta:
- E eu sou o Gays. 'Portugays'.
Pronto. Quase morrem de rir.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Se a Justiça decidiu, quem sou eu pra contrariar?



Esse é o direito de resposta que o PT conseguiu, através da Justiça, que fosse colocado no site do PSDB. Original aqui.
(Tooooooooooooooooma!!!!)

segunda-feira, 28 de junho de 2010

À paraguaia

Espaço: Ciudad del Este
Tempo: Poucas semanas atrás. Ou pode ser quente, também, muito quente
Ato único

Andavam pelas ruas da cidade com o olhar atento, encantado, mas ao mesmo tempo cansado e acostumado com aquele lixo de sempre. Com aquele calor que gruda, com as pessoas empurrando, oferecendo meias, massageador, aparelhinho de choque e camisinha musical. Ainda assim, encantadas com o que mais lhes parecia uma 'MAIAMI' (made in China, beibe!).
E alguém, então, aborda uma das moças:
- Quer meia, moza, meia?!...
- Não, obrigada.
- E um namorado?

quarta-feira, 9 de junho de 2010

O sorriso de Maristela



Entramos no galpão onde o artesanato era vendido e logo a vi, à espreita. Cada passo nosso era vigiado pelos olhos atentos e, quando se percebia avistada, o pelo sorriso encabulado e a tentativa de esconder-se atrás da janela. Sorrateira, me dirigi em sua direção. O que me esperava do outro lado me encantou. "Qual o seu nome", perguntei, me preparando para indagar o que significava o verbete Ava-guarani. "Maristela."
Maristela, apenas Maristela. Talvez por estar na tribo, por conversar com uma indiazinha, me surpreendi porque seu nome era tão latino quanto o meu. Estrela do Mar, a pequena Maristela na aldeia que a cercava.
Agora, olhando melhor, não entendo meu espanto. Não apenas Maristela, mas toda a tribo perdia o jeito indígena. Ao invés de pinturas, penas e cocar, Maristela usava um conjunto de saia e blusinha azuis. Nos pés, que em outros tempos estariam descalços, um chinelo de dedo. Azul, também. O cabelo, parcialmente preso por uma presilha amarela. E uma tatuagem de chiclete em sua testa a deixavam tão longe de ser índia quanto qualquer um dos meus primos de sua idade.
Maristela não era a única, ali, que parecia fora do seu lugar. Nenhum índio da aldeia parecia como os que povoam nossa imaginação. O espanto se tornou ainda maior quando duas mulheres que acompanham a tribo nos contaram que tiveram que ensiná-los a fazer o artesanato que era da sua própria cultura. Foram reeducados culturalmente.
Tudo para manter vivo nosso imaginário. Parafraseando um amigo, por que não manter intacta a cultura deles nos livros? Assim como a dos gregos, dos maias ou outros povos? Por que não deixar que, como nós, evoluam? Melhor, por que fingir que ainda são os mesmos índios, donos primeiros das terras brasileiras? Por que querer acreditar que o meio, o tempo, o convívio conosco ou a sua própria curiosidade não os tornaram diferentes?
Estudar a língua? Sim, mas registrá-la, para que não morra. Assim como seus costumes, sua vida, o que ainda é possível preservar. E deixá-los seguir em frente. Como qualquer outro povo.
E pensar que, mesmo fora de contexto, mesmo não condizendo com o que imaginava, mesmo que não responda às minhas, às suas ou a outras expectativas, o sorriso de Maristela cativava a quem olhasse. E, como um objeto a ser imortalizado, ficou registrado pelas lentes e pela memória de quem estava ali, naquele dia.

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Tem coisas... que só a dona Maria faz por você!

O celular toca.
- Oi, dona Maria, tudo bem?
Pausa para explicação. Dona Maria é minha avó, Zelinda, que não sei por que cargas d'água ganhou o apelido que carregou a vida toda, sendo chamada assim por filhos e netos.
- Oooo fia! Brigadão, viu? Amei o presente!
- Ah, a senhora gostou, dona Maria? Que bom! Chegou com cartão?
- Chegou sim. Tá escrito 'Que seu dia possa ser melhor com cheirinho de café fresco'. Adorei. Mas me explica uma coisa... o que que é esse trem aqui da Folha de S. Paulo que você mandou junto?
- Oxi. Que trem, vó?
- Um jornal aqui que você botou dentro da caixa.
- Não, vozinha, eu não mandei, não. Comprei no submarino, na internet. Eles mandaram direto para a sua casa.
- Aaaah (surpresa!)...
Nisso ela comenta com alguém que está perto. Um dos meus priminhos, imagino.
- Uai, fio, sabia que esse trem veio direto da internet aqui pra casa?
Não aguento. Não consigo conter os risos.
- Minina! Do que você tá rindo? É da sua avó, é? Que falta de respeito! Uai! Veio da internet, não veio?