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terça-feira, 11 de julho de 2017

Natal do peru

Estavam todos sentados à mesa, esperando o prato principal. Era sempre assim, a mãe colocava a mesa e não deixava que ninguém se levantasse para ajudar. Mesmo que soubessem que depois ela ia lembrar por um bom tempo que havia feito tudo sozinha... Conversas infindas, sobrepostas, alegres. O espírito natalino trazia aquela energia toda, deixava as pessoas mais leves.

Contudo, para a garota que acabara de completar 21 anos, o peso daquele Natal era maior. A barriga, que evidenciava a gravidez adiantada, parecia ter vida naquele dia. O clima abafado da cidade parecia ainda maior, muito mais forte. Vez ou outra se sentia tonta. ‘Deve ser coisa desse calor’, pensava. E logo passava.

- Está se sentindo bem, Lucinha? – perguntou o pai, da ponta da mesa.

- Estou sim, paizinho, é só um calorão que me deu...

- Uai, será que ganho meu netinho nesse Natal?

- Ou netinha, papai. Ainda não sabemos.

- Que seja.

E voltaram à miscelânea de conversas. Só agora a mãe se sentara, após trazer o peru – receita que passou por várias gerações, agradava aos mais diferentes paladares e fez com que a filha sentisse dois ou três chutes na barriga – comprado com a economia de diversas semanas. Não era fácil alimentar uma família de quatro filhos, nem mesmo àquela época. A casa só estava cheia de cacarecos pela proximidade com o país vizinho, famoso por ter tudo de novo por muito pouco. Algo de bom devia haver em morar na Tríplice Fronteira e suportar o calor que escaldava até mesmo as almas. O ano era mil-novecentos-e-qualquer-coisa e a família ansiava pelo início da ceia. Entretanto, havia todo um ritual a seguir e sabiam que a mãe não abriria mão de nada, nenhum segundo.

Assim que a mãe se sentou, todos ficaram em silêncio. O pai limpou os dedos engordurados, do pouco de comida que ele havia roubado sem que a mãe tomasse nota, na toalha da mesa. Aguardou que ela desviasse o olhar para passar a boca, rapidamente. A mãe não gostava quando o pai limpava a boca na toalha de mesa. A filha mais velha, com a criança no ventre, também não e olhou com reprovação para o pai, ao perceber o que fazia. Mas era Natal e decidiu não implicar, ao menos naquele dia. Ainda mais com aquele calorão e aquelas tonteiras que volta e meia sentia... A mãe se levantou e pediu a todos que fizessem o mesmo.

- Meus filhos, hoje é noite de Natal. Vamos fazer uma oração para agradecer pelo ano que passou, por esse peru que pudemos ter nesta noite, pela saúde que temos. Quero que todos deem as mãos – e assim fizeram, ninguém jamais a contrariaria – para fazermos a oração que o filho d’Ele nos ensinou. Pai Nosso, que estás no céu...

- Ai... – a filha sentiu outro chute, enquanto o cheiro do peru parecia irradiar suas narinas.

- Santificado seja o Vosso nome, venha a nós o Vosso reino, assim na Terra como no Céu...

- Amor, o bebê não para! Parece que quer algo! – sussurrou a filha grávida ao marido, que estava ao lado.

Mas você está se sentindo bem?

- Não sei, esse calor todo...

- ... mas livrai-nos do mal. Amém. Agora, a oração à mãe de Jesus, nossa mãe tão santa, que também nos abençoa sempre. Ave Maria, cheia de Graça...

- Ai...

- É o que, Lucinha? Quer se sentar? – perguntou o marido da filha.

- Não, não. Outro chute... – e o cheiro do peru parecia cada vez mais encantador.

- ... e bendito é o fruto do vosso ventre...

- Ai! Gente!

Todos olharam em direção à filha, grávida. Estava molhada. A bolsa havia estourado. A criança decidira ali mesmo que era hora de nascer. E o peru, ah!, o cheiro daquele peru... O marido, pálido, entrou em desespero. Queria correr pro hospital e Lucinha, tranquila, avisou que ia se limpar antes. Um banho era melhor. Não queria que o filho – ou filha! – viesse ao mundo com ela naquele estado. Afinal, a bolsa havia estourado mas ela não sentia muita dor. Podia esperar. Depois do banho foi ajeitar as coisas para levar para o hospital, afinal, o filho – ou filha! – tinha se apressado dez dias.

A família, que já nem lembrava mais da ceia, já estava toda a postos no hospital, esperando a chegada do novo ente. E da filha, que ainda se arrumava. Quando chegou ao hospital, as enfermeiras duvidaram que estava para nascer. Lucinha estava muito calma, demais para quem está para parir. Entretanto, estava em trabalho de parto, verificaram as enfermeiras e chamaram logo o médico de plantão.

Ao chegar à sala de parto, o médico avistou a menina com seus 21 recém-completos e, quase indignado, perguntou:

- Não podia esperar eu terminar a ceia, não?!

- Eu nem comecei, doutor... E tinha um peru tão cheiroso... – e riu, enquanto sentia mais alguns chutes.

O médico verificou a dilatação e percebeu que era preciso uma cesárea. Preparou-se para a cirurgia, para que fosse o mais rápido possível. Afinal, era Natal, ninguém merecia estar de plantão. Mas ele estava. A família já estava inquieta na sala de espera, ansiosa pelo nascimento do menino – ou menina! E, na sala de cirurgia, o médico a retirava do ventre materno. Contudo, nenhum choro. Nenhum grito. A criança, uma menina, olhou para o médico e indagou:

- E aí, doutor, cadê o peru?

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Meu (nosso) bebê


Depois de tanto tempo, ele enfim toma forma. E nós, mães corujas, ficamos babando... =)
Quer mais? Então entraí!

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Falsidade ideológica

Chego à esteira onde a bagagem deve ser retirada e aguardo. Pego a minha mala, a esteira continua a rodar. Um por um, meus companheiros de voo pegam seus pertences e se vão. E eu, ali, parada. Além da mala, aguardava um atabaque. Não, não era meu. Era uma encomenda. Que tinha sumido. A esteira continuava a rodar, mas nada mais estava nela. Ninguém mais ao meu lado.
- E agora, o que eu faço - pensei.
Olho para os lados. À minha direita se aproxima um atendente da empresa aérea.
- Falta alguma coisa, moça?
- Falta. Meu atabaque.
- Atabaque? - me pergunta, com uma expressão que não consegui definir se era susto ou dúvida.
- É, uma espécie de tambor...
- Eu sei o que é um atabaque! Mas você trouxe um?
- Trouxe.
- Tudo bem, vou verificar o que aconteceu. Você pode sentar ali e aguardar que logo a chamo.
Sentei. E esperei. E esperei. E esperei. Já estava bem cansada de esperar quando aquele som de alerta característico de aeroportos, para que as pessoas prestem atenção na mensagem, toca.
- Senhora Paula Fernandes, por favor dirija-se ao balcão de atendimento da empresa tal.
Levantei, peguei a mala e fui. Quando já estava perto o suficiente do balcão para ouvir o que os atendentes conversavam, avistei o rapaz que havia me atendido anteriormente.
- Viu, não é ela. Olha ali - disse ele.
- Onde? - perguntaram outras três atendentes que o acompanhavam.
- Ali, vindo em nossa direção - e apontava para mim.
- Onde? - procurando além de mim, como se eu não estivesse ali.
- Ali - e caminhou até mim, com o atabaque nas mãos - viram só, eu disse que não era ela.
- Aaaaaaaaaaaaaah... - exclararam, em uníssono de decepção, enquanto guardavam algo que pareciam bloquinhos de papel e canetas.
- Moça, tá aqui seu atabaque. Elas acharam que você era a cantora, sabe? Me dá um autógrafo? - e riu.
Ri também, de entender o porquê de tanta decepção. Imagine, uma Paula Fernandes que perde um atabaque... Vai que decidiu mudar o estilo?!

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

A gente

A gente não escolhe gostar, a gente gosta e ponto. Era bem mais fácil gostar de alguém que a gente sabe que gosta da gente. Sem dúvida, a primeira opção. Todo mundo gosta de ser primeira opção. Mas a gente parece que gosta de sofrer, não sei. Gosta de viver de dúvidas, cheio de incertezas. A gente gosta da conquista, muito mais que do gostar, mesmo. A gente tinha que mudar. Porque assim, a gente sofre. Muito.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

A menina do livro

Sorria sempre. Para todos. Amava sorrir e adorava quando ganhava sorrisos de volta. Achava que a vida era muito mais fácil quando enfrentada com um sorriso. Mas não sabia que também gostavam quando sorria. Até que, um dia, ele lhe disse.
- Se eu fosse escrever um livro sobre você, o título seria A Menina do Sorriso de Ouro. Acho seu sorriso lindo.
É, tinha valido a pena sorrir por tanto tempo.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Quando o silêncio é a melhor opção²

Dia de resultado de vestibular. Os cursinhos locais vão com os alunos concorrentes para fazer a festa dos aprovados em frente à universidade. Morávamos a cerca de três quadras da universidade, mas não fomos acompanhar a 'festa'. Estávamos Graci e eu em casa quando entra o Buzzi, namorado da Fabi, que também morava conosco. Ele vinha da universidade.
- Meninas, eu estava lá na frente da universidade rindo da cara dos trouxas que não passaram no vestibular!
- Buzzi! A irmã da Graci não passou!
- Ah, Graci, nem se preocupe. Aconteceu. Eu tava rindo é dos trouxas que não passaram em Arte-Educação...
- Buzzi! Foi pra isso que a irmã dela tentou!

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Quando o silêncio é a melhor opção¹

Numa roda de amigos, conversa sobre nomes que cada um considerava feio.
- Ah, eu não gosto de Francisco.
- E eu de João.
- Ah, não, gente, mas não tem pior que José. José é muito feio! - exclama uma das amigas. Duas outras, meio em desespero, replicam:
- Déia! O nome do Jota é José!
Parênteses. Jota é um dos colegas na roda, um piadista que se dá bem com todo mundo.
- Ai, sério Jota? Desculpa... Mas pensa, podia ser pior, podia ser José Antônio.
- Déia, fica quieta. O nome dele é José Antônio!

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Recíproco

- Eu posso viver sem Beltrano e até sem Cicrano, mas não sem você!

É, meu bem, eu também. Eu também...

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Amor maior

Enquanto fui arrumar minha mochila para voltar para casa, ele me observava. Coloquei-a nas costas e, quando saí do quarto, ele entrou. Pegou a mochila de rodinhas e a trouxe arrastando em nossa direção.
- Tchau, mamãe. Vou morar com a dindinha uns dias.
- Como assim, morar com a dindinha?
- Eu vou pra 'Camorão' com ela...
- E vai me deixar sozinha?
Na tentativa de comover o pequeno que dizia que iria deixá-la por uns dias, e talvez até mesmo por perceber que, mesmo tão novo, era já tão independente e decidido, ela fingiu chorar. Colocou a mão sobre o rosto e fez o barulho que o filho, ao ouvir, soube exatamente do que se tratava. Dono de um coração puro e de uma sensibilidade incomum aos seus três anos e meio, ele acariciou a perna da mãe, como quem consola a alguém que ama, e deu fim à conversa.
- Não chora, mamãe. Vou morar com a dindinha só um pouquinho, tá?


quinta-feira, 1 de julho de 2010

Aceno de partida

12 de fevereiro de 2004. Meu coração ficava em pedaços enquanto as lágrimas escorriam dos meus olhos. Minha mãe e minha irmã embarcavam rumo à Bahia para desvendar terras novas. Ficava, em mim, a torcida por uma vida boa para elas, lá, e a vontade de revê-las o mais breve possível. E de conhecer a terra tão cheia de encantos que me contavam as cartas. Que me mostravam as fotos. Que me cantavam os sons. E que é ainda mais apaixonante com todas suas cores, suas nuances, seu canto.
De 2004 para cá aprendi a lidar com a saudade, que aperta, que sufoca, quase mata. Aprendi que uma ligação de bom dia pode trazer toda a alegria de um dia. De lá para cá, todas as pessoas da minha família foram se afastando e fui me sentindo cada vez mais só. Com a força e segurança - sempre! - do meu pai, até que decidi eu ir para longe.
Fui para as terras do sem-fim. Por lá fui feliz, hoje percebo. Mas, à época, eu queria mais. Queria minha terra. Meu Paraná. E voltei. A saudade que me corroia foi se tornando mais branda e a minha família voltando para perto de mim.
Julho de 2010. A data, precisa, não está definida. Mas, tal qual o 12 de fevereiro de 2004, vai marcar minha vida. Agora toda minha base, todo meu porto, toda minha segurança vai estar a poucas horas de mim. Distantes, ainda, mas tão perto. E sempre ao alcance de um alô. E isso me faz feliz.

(Minha família continua espalhada, mas agora quase todos estão no Paraná. E eu me sinto mais em casa, de novo. Mãe, te aguardo ansiosa. Te amo!)

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Egocêntrica

Domingo, resolvemos ir à videolocadora, eu e Cíntia, para não deixar o dia em branco. Mas nenhuma de nós tem cadastro. Levo meus documentos.
- Endereço?
- Avenida Tal, número tanto, apartamento blábláblá.
- Profissão?
- Jornalista.
...
Ao sairmos da locadora, conversamos.
- Ai, Cíntia, adoro quando perguntam o que eu sou só pra dizer que sou jornalista.
- Imagino, Paula. Eu adoro contar para os outros que moro com uma jornalista.
...
E eu que me acho! rsrs

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Contagem regressiva

Dez dias para a virada do ano, quatro para o Natal - o mesmo número para meus 24 anos -, dois para embarcar para a Argentina e menos de seis horas para ir para Foz. Gelo na barriga, borboleta no estômago, arrepio na espinha.
Duas semanas num país desconhecido, na cidade mais europeia da América Latina. Oportunidade única, incrível. Vontade infindável de que chegue logo e de que possa ser muito mais fantástico que imagino.
É a primeira vez, na minha vida, que passo meu aniversário longe da minha família, seja qual for os lados. Mesmo assim, não estou triste. E sei que, lá, tudo vai dar certo. Tudo vai ser lindo, cor de rosa. E que o Pablito nos aguente!
Estamos chegando!!!

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

A Supremacia Dinda

Uma conversa ao telefone.
- Ai, Paula, precisa ver. Quando perguntam onde passamos o final de semana, o Marco não diz que foi na casa do pai nem da avó. Diz assim: 'na dindinha'.
...
(Diz que não é cria minha, diz...)