sexta-feira, 18 de março de 2011

Anoiteceu...


... ele pegou a viola e eu fui só olhar...
Lindo. O show do Renato Teixeira foi incrível. E é impossível, seu Ney, não lembrar do senhor num show como esse. Mais cedo, enquanto o entrevistava, pensava no quanto o senhor ia ficar orgulhoso por eu ter conversado com alguém que o senhor admira tanto. Que se sente feliz - e orgulhoso - em poder representar a cultura caipira. Que faz uma música, como ele mesmo define, de baixo para cima. Que não é feita para vender. É para emocionar. Para viver. E eu vivi, vozinho, durante o show, todos os anos que passamos juntos. E me emocionei, claro. Liguei para a mãe, para o pai e para a vó, para contar, mas não é a mesma coisa. Queria ter dito ao senhor. Ter contado, vô, que amei o show. E que amo a cultura caipira, mesmo que eu seja bicho de cidade. Que amo a cultura caipira porque ela me traz você, vô Ney. E você sempre foi motivo de orgulho. Esse show, vozinho, foi para você.

A foto é minha, mesmo. Achei que ficou bonitinha...

terça-feira, 15 de março de 2011

Nonsense

Porque eram motivo de piada, riam dos outros. Das suas dificuldades, suas incapacidades, seus devaneios.
Porque conheciam bem o preconceito, julgavam os díspares. Os promíscuos, os dislexos, os evangélicos.
Porque não sabiam o que falar, falavam da vida alheia. Da vizinha, da amiga, da própria família.
Porque viviam no inferno, acreditavam que o céu não existia. Nem os santos, nem os anjos, nem a luz.
Porque eram porcos chovinistas, não aceitavam outras espécies. Outras ideias, outras ideologias, outras crenças.
Porque faziam de conta que amavam a todos, a casa sempre estava cheia. De novos amigos, de novos conhecidos, de novos pretendentes.
Porque pouco valiam, passaram por essa vida sem fazer muita diferença. Para mim, para ela, para ele.

sexta-feira, 11 de março de 2011

Onipresente

Queria estar em todos os lugares, em todos os tempos. Queria os amigos e os amigos dos amigos. Queria o mundo e não se importava em pedi-lo, ao invés de ir atrás. Tinha o dom da inteligência e nunca precisou de esforço. Ria das limitações dos outros e não percebia que também as tinha.
Todos os dias, antes de sair, vestia sua melhor máscara. Tinha uma para cada ocasião, uma para cada sorriso novo. Amava com facilidade imensa e de maneira tão expôntanea que sempre parecia verdade. Tinha o dom da inteligência e nunca precisou de esforço. Lutava contra o preconceito dos outros que via em si próprio, mas fingia não existir.
Em casa escolhia a máscara viril, sóbria, que mantinha o respeito dos entes queridos. Mal chegava ao portão e já a escondia. Gostava mais da intelectual, porém menos séria. E da colorida, quando resolvia que era hora de festa. Subestimava aos outros frequentemente, porque conhecia as próprias incapacidades. Tinha o dom da inteligência e nunca precisou de esforço. E, sem esforço, conseguia o que queria. Porque aqueles de quem ria, lutava e subestimavam lhe tinham estima e ajudavam sempre que podiam. Como estava sempre em todos os lugares, em todos os tempos, convencia a alguns. Depois a outros. É, tinha o dom da inteligência e nunca precisou de esforço.

sábado, 5 de março de 2011

Sem superstição

superstição s. f. 1. Sentimento de veneração religiosa fundada no temor ou ignorância e que conduz geralmente ao cumprimento de falsos deveres, a quimeras, ou a uma confiança em coisas ineficazes. 2. Opinião religiosa fundada em preconceitos ou crendices. 3. Presságio que se tira de acidentes e circunstâncias meramente fortuitas.



Casou de branco, como manda o figurino. Em uma comemoração pública, como é de se esperar. Manteve a castidade; só a entregaria ao homem de sua vida depois do 'sim' no altar. Escolheu minuciosamente cada detalhe, cada pessoa, cada flor de seu buquê. Dispensou a chuva de arroz, não acreditava que aqueles grãos lhes trouxessem energia positiva. Arroz simbolizava frutificação, prosperidade, fertilidade, saúde, riqueza e felicidade, mas para os chineses e hindus, e certamente ela não era um ou outro. Esqueceu-se do nome das amigas na barra de seu vestido, tampouco quis jogar buquê. Se não foi preciso que ela pegasse um buquê para estar ali, àquela hora, as amigas também não precisariam. Entretanto, lembrou-se de, primorosamente, preparar um arranjo para cada uma das solteiras presentes. Como uma lembrança, pensou. Certificou-se de que teria um sino, uma bíblia e de que as alianças estariam lá. O ritual seria completo, perfeito, intangível. Se não fosse um pequeno detalhe. Mínimo, ínfimo. Imperceptível a olhos sem superstição, mas que fizeram os da noiva transbordar. Antes da cerimônia, num ímpeto, o noivo entrou em seu quarto e viu, pendurado, parte de seu vestido. A causa mortis do brilhantismo da festa fora decretada. O que restava, agora, era chorar.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Gay. Por minha causa.

Cena um (ao telefone)
- Oi!
- Oi, tudo bom?
- Tudo. Você me ligou?
- É, liguei, queria saber se você não quer fazer alguma coisa hoje...
- Heim, esse barulho ao fundo... é água? - pausa para perceber que a lua brilha lá fora e não há o menor sinal de chuva por perto - Você está tomando banho?
E cai na gargalhada.
- Estou, por que?
- Como assim por que? Você está tomando banho e atende ao celular no banho? Você está falando comigo enquanto toma banho? Meu, me liga hora que você sair, pode ser?
- Beleza.
E desligam. E caem, os dois, dessa vez, na gargalhada. Cada um em seu canto.

Cena dois (conversa no MSN)
Fulano diz:
Passei por gay hoje por sua causa.
Paula diz:
Ahm?
Fulano diz:
Estava voltando pra casa e lembrei daquele dia que atendi sua ligação e eu estava tomando banho. Aí dei risada sozinho. Nessa hora um cara passa e acha que dei risada para ele, e sorri de volta...
.
É... abalando corações!

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

In memoriam

- Filha, você está sozinha?
Disse minha mãe, ao telefone, às seis da manhã. Respondo meio irritada com o horário, esperando vir a bronca.
- Não, mãe.
- Que bom. Porque ele vai poder te dar forças.
- ...
- Filha, o vovô foi embora hoje, às três da manhã...

Já fazem três anos. Exatos três anos hoje. E recordar desse diálogo sempre me tortura. Eu sinto a mesma dor que senti naquele dia. Mas parece que já me acostumei com ela. Já consigo falar sem embargar a voz. Já consigo pensar com uma saudade mais gostosa que dolorida. Já consigo ouvir falarem sobre sem chorar. Sabe, seu Ney, entendi que o tempo cicatriza as feridas, mas não apaga as marcas. Mesmo assim, gosto da que ficou. De poder lembrar do senhor com um sorriso no canto da boca. De lembrar até das nossas brigas e ver que sim, cada segundo valeu à pena. Das coisas que aprendi, que o senhor me mostrou. Você sempre foi tão atencioso, vozinho. Espero que esteja bem, onde estiver. E que eu tenha lhe libertado, porque juro que tenho tentado. Muito. Amo você, seu Ney.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

O que me faz sorrir...


Ver e passar o tempo com a minha família me faz sorrir.
Meu Pingo lindo, todo faceiro quando chego em casa, só por me ver, me faz sorrir.
Encontrar um amor, mesmo que do passado, e ver que está bem me faz sorrir.
Minhas conversas com minhas amigas me fazem sorrir.
Viajar me faz sorrir.
Conhecer gente nova, bonita (não estou dizendo de aparências, beibes. Gente bonita por dentro. Porque o essencial é invisível aos olhos, lembram?), divertida, me faz sorrir.
Minhas crianças perto de mim me fazem sorrir.
Ver que ainda há esperança me faz sorrir.
A balança, ultimamente, me faz sorrir (ueba!).
Uma gargalhada boa, de criança, especialmente, me faz sorrir.
Ver que sou bem quista a quem quero tão bem me faz sorrir. Por isso que, receber esse selo de alguém especial como a Carol, me faz sorrir. Je t'adore, mon amie! (Viu, ainda lembro de alguma coisa das aulas de francês! Hahahaha)
Mas a Carol explicou que precisava falar apenas duas coisas que me fazem sorrir... É pouco, gente, muito pouco... Então coloquei umas a mais... E as cinco pessoas sorridentes que me fazem sorrir, além dessa minha amiga querida cheia das gargalhadas gostosas, são minha mãe, a Lari, a Graci, o Pedro e a Camis. Queridos, me contem, o que os faz sorrir!? Vamos espalhar esses sorrisos? Beijos. E sorrisos!

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

A gente

A gente não escolhe gostar, a gente gosta e ponto. Era bem mais fácil gostar de alguém que a gente sabe que gosta da gente. Sem dúvida, a primeira opção. Todo mundo gosta de ser primeira opção. Mas a gente parece que gosta de sofrer, não sei. Gosta de viver de dúvidas, cheio de incertezas. A gente gosta da conquista, muito mais que do gostar, mesmo. A gente tinha que mudar. Porque assim, a gente sofre. Muito.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Choque de realidade

Duas mãos entrelaçadas e o mundo desabado. Quando não se vê, o sofrimento é menor. As dúvidas, o medo, tudo é menor. A realidade nem sempre é o que se espera. Geralmente é cruel. Mas é o que temos. É o que precisamos. Dói, mas é real.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Descobri que não posso ter filhos

Não, não fiz nenhum exame. Descobri isso há alguns minutos. Meu primo de 14 anos está passando a semana na minha casa. Almoçamos e deixei-o na esquina de cima da minha casa. "Você acha que consegue abrir o portão, Luquinhas? Tranca a porta, direitinho, e me dá um toque quando entrar em casa, tudo bem?". E vim para o trabalho. E nada do toque. E nada do toque. E nada do toque. E começou a chuviscar. "E se ele não conseguiu abrir a porcaria do portão, que vive emperrando? E se ele está na chuva? E se alguém pegar ele?".
Começou a me dar palpitações. "Vou para o jornal ou volto para casa?". Suei frio. "Acho melhor ligar para ele". Caixa de mensagens. "Droga. Porcaria de celular, de que adianta eu colocar créditos se nem ligado ele está?". Decidi que era melhor ficar calma. Se até chegar ao jornal ele não tivesse ligado, pediria para alguém ir, de carro, comigo, até em casa. "Falta só meia quadra... ai, Luquinhas, cadê o toqueee?". Olhei no celular, vai que havia tocado e eu nem tinha visto. Nada. Coloquei no bolso, mais fácil de perceber. Nada. Quase na porta do jornal, com o coração na mão, resolvi olhar de novo. Uma chamada não atendida. Olhei, número do Lucas. Alívio. Muito alívio. Alívio mesmo. Ufa. Ele está bem. Meu bebê (?!) está bem. Isso que nem é meu bebê, mesmo... Imagine quando tiver um!