quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Luz

Foto: Irineu Ricardo


É tão rápida a incidência da luz ao atravessar nossa retina que sequer percebemos que é tal fato que nos permite maravilhar as belezas que encontramos. A física explica, mas é tão natural amar o verde, o azul, o amarelo, tantas cores!, que nem nos damos conta de que elas, na verdade, não estão ali. Apenas refletem aquela que o objeto em si não pode absorver.

Certamente, de todas as belezas, a luz é a maior. É ela que nos permite conhecer as formas, as nuances, os caminhos. É por ela que oramos quando não encontramos uma resposta. É com ela que a nova vida chega.

Quando você abre a janela e deixa a luz entrar, sente o calor que irradia dentro do seu corpo, parte a parte. E entende que é graças à luz que enxergamos a vida. E nossas crianças, nossas cidades, nossos amores. É a luz que registra, ao se deixar desenhar pelas lentes de olhares atentos, os momentos mais felizes que passamos. Os mais marcantes. E, porventura, os mais tristes também.


E o mais incrível, perceberão os corações mais intensos, é que a luz está aí, em toda parte. Dentro de cada um de nós. Porque, no final, tudo é luz.

.

O texto e a foto fazem parte do livro "Campo Mourão em Olhares e Versos", organizado por Lucas Mantuan e Jenifer Yasoyama e com correção da Gracieli Polak. A ideia era escrever um texto a partir de fotos de fotógrafos da cidade. O meu texto foi complementando as fotos do Irineu, mas escolhi esta para este post.

sábado, 9 de março de 2013

Discalculia*

Não me venha com números. Nunca nos demos bem. Os números são frios, estáticos, calaos. Por mais exatos que sejam, costumam apresentar margem de erro. E, mesmo assim, não perdoam a inexatidão humana.
Não me venha com números. Ele generalizam, somam males, diminuem vidas. Contabilizam, sem dó nem piedade, tudo aquilo que nos assusta, amedronta e entristece.
Não me venha com números. Eu gosto mesmo é de sorriso, de histórias, de gente. De cheiro de vida, de calor de abraço, de gosto de beijo. Números me mostram, quando muito, um quadro geral. Mas eu não quero saber do todo, mas da Maria, do João, da Amélia. E de você. Por isso, por favor, não me venha com números.

* discalculia: perturbação ou dificuldade no cálculo aritmético. O mesmo que dislexia, aplicado à matemática.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Novos caminhos

Não passou a noite anterior acordada, de tão ansiosa, como antes. Tampouco preocupou-se em ver, com antecedência, como faria para estar lá, mesmo longe e com hora marcada. O passo, já firme, entretanto, tremeu ao entrar na sala. Cheia, de tantos rostos desconhecidos e completamente sem marcas. O tempo não passara por ali. Olhou para suas unhas que, sem perceber, tinham sido pintadas de um rosinha que talvez tentasse enganar àqueles que não conhecia. Até mesmo a flor, infantil, em uma das unhas tentava lhe dar menos anos que os que tinha passado. Mas não era consciente, era quase irracional. Caminhou até o fundo e se sentou, próxima à parede. Pegou o caderno rosa com um gatinho na capa, mais uma tentativa insensata de tentar fazer parte, talvez. Olhou atenciosamente à mestra na frente e se deliciou com cada momento da aula que se seguia. É, era caloura novamente...

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Luto

Hoje, vozinho, o senhor morreu de novo. Sim, eu sei que já se passaram quase cinco anos da sua partida, mas essa noite, nos meus sonhos, o senhor estava vivo. E morreu, ali mesmo, no sonho. Ali mesmo, nos meus braços. E chorei, mais uma vez. Passei o dia de luto. Como naquele 15 de fevereiro, anos atrás. E acho que o céu percebeu, pois agora chora junto comigo.

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Tum-tum

Tinha apenas quatro meses e toda a vida pela frente. Seu pequeno corpo ansiava pela vida. Lutava, quando outros já teriam desistido. Faltava-lhe um pedaço, nasceu com um buraco no coração. Mesmo assim batia, ávido. Pulava incansavelmente para fazer com que lhe amassem, que estivessem ali. E estavam. Até o último minuto. Até quando seu pequeno coraçãozinho cansou. E decidiu que era hora de parar. Mas viveu, amou e foi muito amado. Triste é pensar que outros tão inteiros, tão maciços, já não sabem para que batem. Criam um buraco muito mais difícil de tapar. E amargam suas vidas.

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Em mim

Eu queria te abraçar até te deixar aqui, dentro de mim. Porque seu abraço me completa e me acolhe. Nosso abraço. Compassa as nossas respirações, traduz nossas vontades. Ao menos a mim, faz feliz.

*Registrando o que meu amor disse. Porque eu também gostaria de ter-lhe dito!

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Encontro musical

- Agradeço a atenção, Fabio. Vou deixar meu cartão com você e aguardo o seu contato.
Ele pega o cartão e lê, com atenção.
- O seu nome é Paula Fernandes?
- Isso - respondo, já à espera de uma piadinha.
- Não acredito! É brincadeira!
Rio, porque não tem muito mais que eu possa fazer. Ele, então, completa, para a minha perplexidade:
- O meu é Fabio Jr!

domingo, 8 de abril de 2012

Cantora errada

Durante uma reunião numa chácara, entro no banheiro. Lá, apenas uma garotinha de cinco ou seis anos. Talvez sete. Que me fita atenciosamente e exclama, certeira:
- Eu tenho uma música sua!
Assusto-me, já que não a conheço. Não usava crachá algum, como saberia ela que meu nome é de uma cantora famosa?
- Aé? E que música minha você tem?
- Da Ivete Sangalo. Você é muito parecida com ela!

terça-feira, 20 de março de 2012

Marquices

- Marco, quer ir na casa do meu namorado?
- Eu conheço o seu namorado, dindinha!
- Conhece sim. Sabia que ele tem um video game?
- Nossa, eu gosto MUITO do seu namorado, sabia, dindinha?

domingo, 11 de março de 2012

Fácil, facinho

"Gosto e preciso de ti, mas quero logo explicar, não gosto porque preciso. Preciso sim, por gostar." (Mario Lago)

É engraçado o peso que essa palavra tem, especialmente quando se trata de você. Porque eu amo fácil, facinho. Não canso de dizer do amor que sinto por minha família, incondicionalmente, e meus amigos tão queridos. Não hesito em chamar de meu amor as minhas crianças - afilhado, primos e até mesmo o filho do meu padrasto e sobrinhos emprestados. Também meu cachorro é meu amor. Permito-me, inclusive, falar do carinho que ainda mantenho por amores antigos, mas me assusta admitir um novo. E se estiver precipitada? E se estiver enganada? A verdade é que eu amo fácil, facinho. E você me cativou de uma maneira que eu não esperava, com uma intensidade não planejada. Fez com que eu mudasse os meus planos, invadiu - veja só! - os meus pensamentos. Ocupou espaços vazios e outros sofridos dentro de mim. De tal maneira que preciso lhe ver e ter notícias suas todos os dias, senão piro. Tanto que, como há muito tempo não acontecia, só você me basta. É, eu sei que amo fácil, facinho. E sei, também, que queria lhe chamar de meu amor, mesmo que, com frequência, o silêncio me ganhe.