quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Aguado*

Olhou para a janela do banheiro e percebeu que havia potes demais ali. Ela sempre acreditava que, com um pouquinho mais de água, o restinho duraria uma eternidade. Colocava mais água e deixava de reserva, para que o finalzinho do xampu pudesse se misturar à água. Trazia um novo pote e seguia sempre o mesmo ritual.
E nesta manhã, quando foi tomar banho e se pegou pensando nas desilusões amorosas que não conseguia pôr fim, avistou os potes de xampu, todos sem produto e com água. Percebeu que era sempre assim na sua vida. Misturava com um pouquinho mais de água e acreditava que aquilo que havia acabado ainda podia durar. Capengando, aos trancos e barrancos, mas durava.
Não conseguia se desvencilhar dos amores, não aceitava bem o fim. Então prolongava o inevitável, vivia vários subamores na tentativa de recuperar, com água, um deles e ter para sempre consigo. E, ao constatar seu triste vício, ela se desesperou. Pegou os potes, todos, e despejou a água pelo ralo. Água, apenas água. Não havia mais xampu ali, por que guardara aquilo por tanto tempo? Chorou. Não pela água que descia ralo abaixo, mas por perceber que tudo na sua vida era aguado. Enxaguou o rosto para cessar as lágrimas e desligou o chuveiro. Enrolou-se na toalha e saiu, deixando os potes todos espalhados pelo chão. Agora, sem água, eles não serviam para mais nada, mesmo.

*Das coisas que aprendi com Carpinejar. Obrigada por isso!

5 comentários:

  1. Me vi ali, naquele banheiro, na mesma situação.Lindo texto, linda você...! Saudade. Beijos

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  2. Lindo texto, linda você...!
    E chique também: uma das coisas que aprendi com Carpinejar não é pra qualquer um...
    Acho que gostei mais da mensagem implícita no texto...
    Beijo, mocinha.

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  3. Uma vez você me disse: Tati, você escreve de um jeito triste. Te devolvo agora a observação: O que você escreve é lindo, mas tão, tão, tão triste. Espero que isso seja apenas o reflexo de uma parte mínima do seu dia, ou seja, para cada constatação triste, sobrem um punhado de alegrias. Beijos

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  4. Lindo, lindinho. E essa comparação dos potinhos do xampu com os pontos finais nunca dados é muito conveniente! E até mesmo verdadeira.

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  5. Adorei a metáfora. Quanta criatividade! E como ela me fez refletir... :)

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